sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Celebração


Eis que mais um ano se completa, se encerra, termina. Mais que o transcurso de um tempo cronológico, esse período marca a derradeira conclusão de mais uma fase vivida, não importa como ela tenha sido, se foi boa ou se foi ruim, a relatividade destes conceitos é tão subjetiva quanto o julgamento que qualquer um faz da própria existência. Independente das opiniões que se tenha a respeito, é incontestável que este é um tempo sem volta, e submerso nas águas do passado, nunca mais emergirá. Mesmo que no ocidente essa época seja marcada por simbolismos e crenças, é inegável a relevância dela para todo mundo e o quanto as pessoas aguardam este momento de redenção para consultar seus calendários e planejar seus objetivos, muitas vezes iguais ou similares àqueles que as motivou em anos anteriores, anseios projetados que perderam seu vigor diante do obstáculo das fraquezas individuais. Esses 365 dias que fracionam a vida humana em dias, meses, anos, décadas e para alguns felizardos séculos, marcam de forma indelével os eventos registrados na história de cada ser humano sobre esta terra. Da comemoração do nascimento, da data dos aniversários, até o luto da morte, os anos que perfazem os ciclos da vida são recheados de todos os tipos de celebrações.


Mesmo o mais primitivo dos povos criou seus motivos, momentos especiais para festejar ao redor do calor de uma fogueira, uma simples caçada, por mais natural que fosse o mote, essa era uma oportunidade para confraternizar e estreitar os laços entre os membros da tribo e buscar para cada um, a partir do conjunto, a força e a coesão necessárias para se manterem unidos e confiantes em torno de si mesmos e da importância de sua existência dentro daquele contexto. A comunhão do grupo traz mais que conforto para o espírito, ela assegura aos seus membros o bem estar de ser querido, o poder de dar e receber o chamado calor humano, de fazer parte de um conjunto que defende, mas que ao mesmo tempo também o protege.



O parágrafo acima remete a nem sempre óbvia relevância prioritária que se deva dar a família, o clã que acolhe e resguarda seus entes, não porque compartilham o mesmo sangue, mas porque dividem seu amor e celebram juntas suas felicidades, dores e tristezas que a existência os impõe, portanto, desde a restrita célula familiar, essa necessidade de participar e compartilhar faz com que os seres humanos, de acordo com sua cultura e seus credos, estabeleçam suas cerimônias e confraternizações para comemorar seus mitos e datas importantes, posterizando as tradições ancestrais convenientes aos critérios e valores de uma determinada sociedade.



Cultura, política, crenças, é irrelevante saber sobre quais alicerces estão fundamentadas as celebrações de um povo ou nação, o mais importante é saber aproveitá-las de maneira consciente, ponderada, ter a certeza de que a vida pode e deve ser festejada sempre, em qualquer dia, todos os dias, independente das datas e épocas do ano.



Alguém precisa esperar que um ano termine para fazer planos e tentar realizar seus sonhos por mais ousados que sejam?



O bom senso indica que não.



Para maioria das pessoas, basta ter saúde e vontade para ir além, perseguir e persistir no intento do que cada um deseja para si, vencendo na medida do possível os obstáculos do caminho, contudo, sem deixar abater-se diante das dificuldades. O problema que aflige muitos é considerar normal esmorecer durante o trajeto, quando na verdade não é, ou não deveria ser. Existem muitos exemplos de seres humanos comuns, pessoas normais, que mesmo estando em uma idade mais avançada ou entrevados, vítimas de algum infortúnio do acaso, são exemplos de bravura e superação, gente encantada com a vida, que vivem e desfrutam de tudo como se fosse a primeira vez, sem medo de serem felizes, insistem em buscar o prazer de estar vivo, experimentar sem culpa e sem receios as novidades e delícias que o mundo oferece a todos ao despertar de cada manhã.



Esse momento de alegria, entusiasmo e valentia nada mais é que o desafio trivial que qualquer pessoa empreende ao acordar, o de vencer mais um dia, depois outro e outro, limitado apenas por uma sucessão finita ditada pela morte, mas até lá, o espírito de luta deverá prevalecer encontrando coragem e disposição na família, nos amigos, nas coisas próximas que fazem bem. A certeza do fim ao invés de ser um desestímulo, deve ser encarada como combustível extra para seguir adiante e prosseguir, revelando para terceiros o segredo de que sempre é necessário ir mais longe que se pensa para alcançar os objetivos individuais almejados para uma vida. Quem sabe, este longe não está tão distante e pode estar mais perto que se imagina?



Então, vamos celebrar todos os dias, porque este pode ser o último. Viver o presente, amadurecido pelas experiências do passado, com os pés no futuro, permite moldar e remodelar nossa essência humana, recriando-nos cada vez que percebemos que podemos melhorar algo, demolindo e reconstruindo a imagem que nos reflete, retocando os tons mais soturnos do caráter por outros mais luminosos e gratificantes, desfrutando da companhia, amando e aprendendo com as pessoas enquanto “estão”, experimentando o novo e comprovando que não é impossível mudar, fazer diferente, sair do lugar comum e ser feliz, porque a vida é tão longa quanto seu próprio instante.


Feliz dia novo...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Essência


Talvez jamais saibamos responder um questionamento tão presente quanto a própria existência humana, o quê ou quem somos nós? Desde que a capacidade de raciocinar permitiu aos homens formular perguntas sobre si mesmo, essa pergunta deve ser, sem dúvida, uma das mais constantes. A criatura humana por seu caráter bio-psico- espirutual, busca incessantemente por respostas, persiste ante a frustração de receber respostas vagas, carentes do respaldo lógico e científico que justifiquem a existência do espírito do homem com uma explicação plausível, laica, desprovida das verdades dogmáticas que muito pouco acrescentam ao crescimento intelectual do homem, subsídio mínimo necessário para concepção de um juízo sensato sobre esse assunto. As respostas prontas, “reveladas”, fundamentadas na duvidosa revelação do divino, trazem consigo além do conformismo de aceitar que as coisas “são assim”, o convite a internar-se num universo ideológico moldado para doutrinar o pensamento humano, cerceando a liberdade mais íntima que a Natureza lhe proveu, a de ser livre para fazer suas próprias escolhas, “conscientemente”, construindo sua individualidade baseada nas vivências pessoais, porém de forma isenta, sem vícios ou alienações de qualquer ordem, contrariando o que geralmente acontece, buscando sempre calcar respostas sobre o inexplicável, respaldadas pelos ensinamentos sagrados transmitidos por algum ser “irrefutavelmente” superior, cuja própria e controversa definição o reduz a mediocridade da “imagem e semelhança” do homem. Esta definição aviltante para com o Altíssimo, embora careça de substância e razoabilidade, lança sobre a humanidade uma centelha de esperança em sua possibilidade de redenção, associando-a a “essência divina” de sua criação, que sugere, consequentemente, uma pergunta: como pode ser o homem, diminuto, composto por matéria, a imagem e semelhança de um ser presumidamente imaterial, tão onipotente, que é capaz de abarcar o todo universo? Não que se esteja pondo em xeque a existência Dele, mas é uma indagação natural quanto à “revelação”, se analisada as vistas do raciocínio e da sensatez.

Cientificamente falando, o quê é um ser humano? Um amontoado de células que se arranjaram num organismo capaz de pensar. Por mais simplista e desalentadora que seja esta definição, nela existe uma verdade incontestável daquilo que realmente é o homem, pelo ou menos aos olhos da ciência em uma visão macroscópica; um animal inteligente. Mas nem tudo são espinhos nesse jardim, brindado com a capacidade de pensar, o homem pôde ir além dos instintos, mesmo se submetendo às restrições que o corpo físico lhe impõe, ele pode ponderar antes de agir, ou seja, pensar, agir “conscientemente” antes de tomar suas atitudes. Essa faculdade humana possibilita na grande maioria dos casos a probabilidade de prever as conseqüências de um ato ou atitude antes que sejam executados. Muito mais que uma vantagem biológica, permite ao homem construir coisas e alterar o ambiente que o cerca, concedendo-lhe uma prerrogativa exclusivamente humana, o direito de escolher seu destino enquanto criatura única, indivisível, pessoal; direcionando suas energias para os objetivos de sua “vida”, que podem ser bons ou maus. Talvez dentre esses “objetivos de vida” reside uma questão crucial para encontrar a essência que cada um quer para si, aquele constituído pela soma dos valores que se pôde amigalhar ao longo do percurso da própria existência, que auxiliados pela educação, moral, bom senso, etc., possibilitam cultivar aqueles de bem.

Seria ótimo se existissem apenas mundos perfeitos, onde somente os princípios mais nobres e elevados como a ética, o respeito, a honestidade, entre outros, se manifestassem, mas infelizmente para cada uma dessas qualidades existem seus contrários, antônimos, que de alguma forma devem ajudar a compor o equilíbrio que mantém essa essência, talvez imperfeita, de aromas que compõe a fugaz vida humana. Talvez se o homem vivesse nesse mundo onírico, estivesse mais ciente de sua própria miudeza, seres que perderam a noção de sua essência primordial de carne e osso, alimentados pelos arroubos da inteligência, que distorcida, os faz achar que são melhores e superiores, uma obra do divino que lhes avaliza a vida eterna, quando a existência da criatura humana não passa de um breve lampejo diante da história do universo, insinuando a insignificância dessas vidas perante a magnitude do cosmos.

Embora o homem possua noção de si mesmo e tenha conseguido modificar o ambiente que o cerca tentando adequá-lo as suas necessidades, muitas vezes destruindo mais que construindo, não muda o fato da indiferença para consigo e com os outros a sua volta. Sua percepção egocêntrica, muitas vezes supera a causa principal do que poderia ser parte de sua essência, ocultando suas qualidades mais notáveis à sombra da indiferença que compromete seu comportamento. Essa carapaça psicológica blinda a sensibilidade e os sentimentos humanos para com a vida, o mais caro dos presentes, tornando-a comum e ordinária frente a outros objetivos terrenos menos essenciais e somente ao final dela percebe-se o quanto eram supérfluos e dispensáveis. A dádiva de viver perdeu parte de sua relevância para o homem contemporâneo, mergulhado nas utopias das verdades supersticiosas ou na cegueira do materialismo crônico, isola-se na auto-suficiência de si mesmo e com seus sentidos entorpecidos, ignora a oportunidade de conviver e compartilhar suas experiências com outros que não se encaixam nos padrões de seu mundo comum, deixa de conhecer a essência alheia, enclausurado pelos preconceitos e verdades que elegeu como absolutas, furtando-se da possibilidade de aprender um pouco mais sobre si e a humanidade da qual faz parte, desprezando a chance justa que a Natureza lhe concedeu.

Ao percorrer os caminhos do destino é provável que vida humana reflita em sua trajetória o antagonismo que prevalece sempre como um divisor de águas, demarcando de forma invisível, porém real, a diversidade de culturas e credos momentaneamente indispensáveis para fecundidade do solo onde germinam diferentes mentes e diferentes mundos dentro de uma mesma Terra, o heterogêneo prepondera criando a diversidade que poderia temperar o caldo da evolução do homem, mas a pluralidade de pensamentos divergentes esbarra na incompreensão e na intolerância daquilo que deveria amalgamar e não desagregar a mistura do “bicho homem”, criando grumos, isolando, ao invés de unir a família humana. A situação pode ser ainda mais complexa quando se considera que pessoas que pensaram conseguir livrar-se das crenças e doutrinas cultivam a mesmas deficiências daqueles que tanto criticam, esquecendo-se da causa porque lutam; inconscientes de que estão corroendo sua própria essência frente suas atitudes. Muitas vezes o deboche permeia a conduta do homem “livre e intelectualizado”, fazendo-o esquecer de respeitar as limitações individuais, ignorando que ao menosprezar expressões do tipo “que Deus o ajude”, ele está incorrendo na ingratidão e na arrogância para com aquele que provavelmente manifestou seu sentimento com a melhor das intenções, de forma verdadeira e despretensiosa, mesmo sabendo que aqueles que veneram podem sucumbir à “tentação” do proselitismo. A superficialidade aparente do intelecto não é capaz de ocultar o vexame que se está exposto quando se desdenha da condição do próximo sem perceber a miséria da posição em que se encontra, confortado pela imaginária alforria e iludido com mediocridade da racionalidade superior, que não passam de um tênue reflexo frente aos questionamentos que sua própria existência lhe impõe.

A subjetiva liberdade, fonte de tantas controvérsias, existe na medida exata das verdades que cada um acredita, estabelecendo individualmente parâmetros relativos que estão vinculados as vivências pessoais do ser em questão, atrelando-o ao “modus vivendi”( concessão na disputa entre partes para permitir vida em conjunto) do espaço que habita. Esse encarceramento determina involuntariamente parte da essência do homem, fazendo com que ele crie seus próprios muros, turvando a mente para imparcialidade, impedindo-o de decidir fundamentado apenas nas evidências que vida lhe apresenta. O problema posto a mesa reside no fato de que ao pensar assim o ser humano elege para si uma personalidade que estampa as conveniências políticas, sociais e religiosas que julga procedentes, levando-o a agir de acordo com as convenções de terceiros e não em função se si mesmo, comprometendo sua forma de ver o mundo e como ele se relaciona com os outros. Essa compreensão cria realidades particulares que dificultam o entendimento da liberdade alheia, considerando-se que ao usar critérios pessoais, esse ser deixa de compreender as diferenças comportamentais que caracterizam a individualidade humana, portanto, ignorando que sua essência não necessariamente deve ser igual ou prevalente sobre a de outros iguais a ele.

Essa criatura inteligente, chamado homem, dito racional, inadvertidamente ou propositalmente assumiu uma posição espiritualista em relação à causa de sua própria existência, condicionando-a a transcendência da vida, no entanto, não há como ignorar a insuficiência destes postulados na medida em que essas afirmações se respaldam na maioria das vezes em narrativas vagas e carentes de uma comprovação mais ampla dos fenômenos em torno deste assunto, coisa que de certa forma contraria a aludida razão. Essa adesão as verdades dogmáticas suscitam uma série de interrogações a respeito da essência humana e da finalidade da vida dentro deste escopo. O conforto trazido pela possibilidade metafísica da vida após a morte poderia ser um dos motivos para tal, essa expectativa assegura aos crentes que mesmo padecendo dos sofrimentos da vida terrena, poderiam desfrutar do paraíso após a morte física, mais que uma esperança essa crença traz felicidade para muitos seres que não tem muito a que ou a quem se apegar justificando para estes a importância de sua essência “divina” fazendo-os conformar com os flagelos da natureza física que lhes é inerente, extrapolando as contingências da vida humana e transcendendo para além dela, logo, é mais que compreensível que o homem busque este tipo de alento, uma vez que felicidade é essencial enquanto energia motivadora para própria existência humana.

Mesmo que o cenário acima possa espelhar o pensamento que grande parte das pessoas tem de si mesmas, esse quebra-cabeça chamado “essência” continua incompleto. Nos dicionários a definição de essência é ampla, abordando todo tipo de significados, neste caso o mais adequado é: natureza íntima das coisas; aquilo que faz que uma coisa seja o que é, ou que lhe dá a aparência dominante; aquilo que constitui a natureza de um objeto, no entanto, o homem enquanto objeto possui uma série de peculiaridades que o destacam das outras criaturas deste planeta, fazendo também com que sua essência seja peculiar. O entendimento dessas características singulares faculta ao ser humano a compreensão de que ele é a essência dele mesmo enquanto indivíduo, e essa construção passa faltamente pelas experiências que a família, a cultura, as crenças, enfim, a vida lhe proporcionaram. Deste modo, não seria verídico afirmar que a essência humana é naturalmente boa e homogênea, esta teoria fracassaria na primeira pesquisa amostral que se fizesse de qualquer sociedade humana, demonstrando quão variado e divergente é o comportamento das pessoas em função das opções a que cada um teve acesso na construção do seu “eu” durante a vida e as consequências advindas do acúmulo dessas vivências.

Independentemente das escolhas que se faça, cada um é responsável pelo que é, exceto é claro, quando se sofre de algum distúrbio psicológico. Mesmo que esta afirmação soe demasiado categórica, observe que o excesso de complacência para com terceiros sempre tem limite, mas o contrário, no entanto, não é verdadeiro, sim, porque qualquer um é incansavelmente tolerante para com seus próprios erros. É exatamente essa postura falível que pode comprometer a essência do que se é, partindo do pressuposto que todo homem tem o direito ou a liberdade de agir de acordo com sua consciência. Essa premissa imputa ao individuo a responsabilidade sobre seus atos, assumindo o ônus da existência e o de vencer de maneira digna os desafios e problemas que vida lhe apresenta, deste modo, ser racional é asseverar que as atitudes sejam balizadas nas reflexões pessoais, fazendo com que os conceitos e valores morais sejam embasados e assimilados, permitindo fazer o bem a si próprio e aos outros, conscientemente, e não porque os postulados sagrados afirmam a necessidade de ser bom para se alcançar a salvação.

É possível que nunca consigamos definir com certeza o que é a “essência humana”, o espectro de fatores sociais, culturais, científicos e religiosos que intervém no significado dessas duas palavras é tão diverso que torna praticamente impossível redigir um parecer conclusivo sobre o assunto, contudo, se considerarmos que parte de nossa essência está associada às experiências e compreensões que tivemos da vida dentro de um contexto histórico particular regido pela “livre” atuação de nossa consciência em paralelo a um conjunto de eventos externos ao “eu” que não podem ser ignorados como elementos estruturais que contribuíram para construção de nossa individualidade de acordo com nossas crenças, necessidades e observações íntimas sobre eles num âmbito pessoal e social que fatalmente determinaram a adoção deste ou daquele critério em detrimento de outros, podemos afirmar com alguma margem de segurança que assim como o espírito, pressupondo sua existência, cada indivíduo, fundamentado pela sua formação e suas convicções, constrói sua própria essência.


domingo, 25 de novembro de 2012

A Mentira da Verdade


Certamente na busca pelo conhecimento de si mesmo o ser humano deverá confrontar a contradição intrínseca ao fato da negação da "verdade", este objeto cuja busca insaciável permeia toda sua existência. Essa diligência vem consumindo o fósforo de muitos pensadores, religiosos e pessoas comuns ao longo dos dias e noites de nossa conturbada história, precipitando na inquietude que tal tema suscita às mentes mais atentas. Seria muito fácil afirmar que a verdade e oposto da mentira e vice-versa, o conformismo albergado nessa questão talvez seja um dos piores inimigos da criatura humana ao longo de sua evolução. A parametrização da verdades contidas na tradição, tão nociva a liberdade, está de tal maneira entranhada na sociedade que quaisquer manifestações avessas a ela configuram a reação à verdade. Quem poderia afirmar que a verdade é de fato a exatamente a verdade? Quem ousaria atestar com segurança essa afirmação? Aparentemente muito poucos teriam estatura e seriam capazes de fazê-lo, mas a “realidade” é outra, muitos se arrogam donos da verdade, aliás, a verdade tornou-se uma “commodity”, um produto habilmente comercializado em um mercado ávido de revelações e maledicências. Esses estelionatários da verdade povoam todos os cenários das atividades humanas. Desde o seio da família, que inadvertidamente o faz, as empresas que vendem seus produtos maravilhosos, associando sua imagem à cultura do poder e do sucesso, os políticos com suas promessas irrealizáveis, as crenças com seus dogmatismos e redenções, afora um universo incontável de comerciantes da verdade que a colocam em destaque em suas vitrines.

É interessante observar que cada um, influenciado pelas imposturas, acaba sucumbindo ao “status quo”, tornando-se a sua maneira, vítima e agente de suas próprias convicções, iludido com as “realidades” fictícias que cada um é capaz de “imaginar” em relação a si próprio, construindo um mundo quimérico adequado a personalidade e às medidas de suas deficiências pessoais, ocultando as “verdades” inefáveis absconsas no íntimo de cada ser, refletidas na “mentira” da pretensa vida que se vive.

A teoria é linda, o mundo segundo a verdade seria perfeito, repleto de alegrias, paz e satisfações, o contrário da mentira, que mergulharia esse mundo na anarquia, na dor, no sofrimento, na discórdia, mas espere um pouco. Afinal em qual mundo se vive, no primeiro ou no segundo? Que perfeição é está? Tão inalcançável e intangível. Mesmo o mais míope dos fundamentalistas religiosos é capaz de perceber que o mundo da verdade, apregoado como caminho da salvação não existe, a humanidade está imersa num oceano de lama onde a dor e sofrimento são tão corriqueiros que se tornaram habituais. Então, este não é o  mundo da mentira? Aquele desprovido da glória da benevolente verdade. Onde está o erro? 

Talvez se careça de dados mais precisos, mas desde seus primórdios a civilização humana é “educada” para zelar pela verdade e repelir a mentira, uma conveniência social decorrente da necessidade de se colocar “ordem no caos”, afinal a estruturante verdade é necessária para alicerçar e tornar "possível" qualquer convivência humana, servindo de referência para a vida social e divisor de águas entre o bem e o mal.

Positivamente pensando, o conceito da verdade é fundamental para a manutenção de algumas premissas do estado de direito, o instrumento certo para balizar normas de conduta utilizadas para estabelecer limites as manifestações individuais, não permitindo que estas extrapolem para balburdia. Natualmente, essa regulamentação "ainda" é imprescindível parar tolher excessos doo comportamento do humano, tão sujeito as tentações “materialistas”, "espirituais" e “carnais”, que a sociedade da “verdade” incute em seu pensamento, algo que fatalmente se reflete na sua postura diante da vida. O incentivo a idolatria ao sucesso, ao poder e a riqueza, contraditoriamente, conduzem a criatura humana ao lado oposto, ao comodismo, ao desrespeito, a mentira, culminando, mesmo diante de todos esses esforços, no fracasso da essência íntima daqueles que se renderam ao dinheiro fácil, a trapaça, e a subversão.

Os meandros do comportamento humano são tantos e tão singulares que o homem se deu ao luxo de categorizar a verdade. Ora, se existe mais de uma verdade, qual seria a verdade? Para desesperadora pergunta temos pelo menos uma alternativa que poderia ser classificada como verdadeira, a “verdade científica” é de fato um retrato da realidade experimentada naquele momento, consumada pela ciência e pelo método que lhe são inerentes. Em tese, não importa onde, nem quando, se forem seguidos criteriosamente as mesmas condições e procedimentos, sempre se há de obter o mesmo resultado: palpável, constante, imutável, no entanto, tem-se que ressaltar uma característica do aspecto experimental, ou seja, a repetição da experiência ratifica a verdade posta à prova, filosoficamente falando, a verdade deve e tem que ser pragmática, subsidiada pela experiência. Por dedução, a verdade, neste caso, é fruto da experiência, da comprovação científica, se apresenta irrefutável, quando se trata realmente daquilo que foi testado, que no caso humano, poderia ser sentido ou vivenciado, desde que se considere que nem tudo que o homem experimenta pode ser comprovado cientificamente, porque se assim fosse, tão natural, tão simples, muitas pretensas verdades já teriam caído por terra, desmascaradas, transparecendo a falsidade e a mentira que ostentam. Não é a toa que muitas pessoas inquietas e eruditas acabem se convertendo em ateus ou céticos pessimistas, quem sabe, desiludidos pela falta de respostas plausíveis ou razoáveis as seus questionamentos.

A flexibilidade, é permeável, faculta ao homem a possibilidade da mudança, uma transigência imprescindível ao amadurecimento humano. A verdade como conseqüência do viver deve ser experimentada, e na medida do que se vive, incorporada a realidade de cada ser. O viver, é ele quem concede o direito universal de conhecer e reconhecer a verdade quando ela se apresenta. Neste cenário o contrário da verdade não é a mentira, a mentira transfigurou-se na credulidade, a propensão humana a crer, coisa que extrapola os limites da razão, ultrapassando a sensatez, indo além de o simples aceitar, conduz o crédulo a acreditar sem refletir ou criticar as verdades que lhe são apresentadas. Essas características são claramente observadas em qualquer mecanismo de manipulação de mentes, sempre haverá um detentor da verdade emblemática, outorgando-se o direito defender suas ideologias políticas, religiosas ou pessoais.

Manipular a realidade em prol dos interesses pessoais, institucionais, ideológicos ou corporativos é transformá-la em mentira envolta por uma carapaça de verdade. Os argumentos podem ser os mais variados, desde zelar pela moral e os bons costumes, até mesmo a manutenção da segurança pública. Desvirtuar a verdade é relativamente fácil, alterando o foco, iluminando alguns pontos e obscurecendo outros não tão gloriosos. No jogo político fica evidente essa prática nojenta do poder. Que o digam os derrotados em guerras, os perdedores serão os vilões e os mocinhos estão sempre do lado vencedor. A história humana está repleta desses exemplos. Manipuladas deste jeito muitas mentiras assumem o caráter da verdade, a veracidade não é relevante, muito menos clarificar a turbidez dessa água, que tantos bebem confiando na sua pureza. Neste jogo sempre existirão prioridades acima do conhecimento da verdade, em muitos casos a verdade se perdeu nos labirintos do tempo, mas na maioria das vezes inexiste a boa intenção de revelar a essência dos acontecimentos, por que arriscar-se perder as regalias e o poder de influência, conquistados e mantidos, em alguns casos, há milênios?

A manutenção da verdade é metafórica, normalmente os homens constroem leis que refletem às necessidades de seus governos e credos, amparando-as no alicerce da verdade. Não é difícil encontrar amostras desse fato, a cultura humana esta cheia de provérbios e frases de efeito, embora banais, pode-se citar, por exemplo: a “lei de causa e efeito”, ou seria a “lei do retorno”, ou “quem com fere com ferro será ferido”, não importa, os exemplos são vários e abundantes, comparativamente à exceção fica a cargo da terceira lei de Newton, a lei física da “ação e reação”, as demais fogem do escopo científico, e se representam de alguma forma a “verdade” fica o questionamento, se as leis “supremas ou universais” realmente funcionam, por que a vida humana é tão injusta? Porque pessoas notoriamente “boas”, que dedicaram ou dedicam sua existência a serviço do bem, não são afortunadas como outras, que ao contrário, não possuem uma “ficha limpa”, uma conduta digna, ilibada, melhor dizendo, politicamente correta? Para perguntas desse cunho sempre surgem respostas infames como: “faltou-lhes sorte”, ou piores ainda, “é a vontade de Deus”. São essas “verdades” que se apregoam pelos caminhos da vida? Certamente que não. Mas, há aqueles que se contentam com respostas evasivas, escravos que alimentam o fogo da caldeira que faz mover as engrenagens da ignorância e da mentira humana.

A verdade é conveniente, de qualquer ângulo que se observe, as relações sociais humanas contemplam a verdade, a verdade é sinônimo de honra, de palavra, questionar a verdade caracteriza a aversão a ela e tudo que representa, talvez por isso homem relute tanto em contestá-la. Culturamente a contestação pressupõe a repulsa a verdade, o medo do isolamento e do afastamento do círculo social aterrorizam o homem, significa auto-imputar-se todos os defeitos daqueles que são avessos à verdade e solidários da mentira. Esse pensamento inculcado na mente das pessoas desde a mais tenra idade pode surtir alguns efeitos positivos para favorecer a vida em sociedade, mas limita seus horizontes na busca pela verdade, restringindo suas opções e limitando suas escolhas. Como é sabido, a verdade pode ser dolorosa, então para poupar as pessoas da agonia e do sofrimento de conhecer a realidade dos fatos, altruisticamente as “instituições” evitam, por assim dizer, que sejam desvelados esses “segredos” potencialmente ameaçadores e destrutivos, omitindo a “indesejável” verdade.

Tão nobre é esse motivo que ele se tornou curiosamente e de forma unanime um “sentimento mundial” ancião, o desejo “elevado” de poupar o povo dessa tortura, dando-lhe “pão e circo”, deve surtir efeitos muitos eficazes na supressão da vontade natural de "busca" pela verdade, uma vez que a receita é antiga e continua fazendo sucesso. O que importa é entregar alguma verdade, mesmo que oca e sem substância, o ser humano se contenta com a ilusão de que teve acesso à verdade e deste modo, feliz, continua sua jornada errante em busca de seu paraíso, sendo conduzido por todo tipo de manipulações, vulnerável a certeza da consciência de quem pensa que tudo sabe. Mesmo sem nada saber a respeito do assunto em que acredita, o homem tende a convertê-lo num conceito, num padrão, algo em que se baseou subjetivamente, fundamentado apenas pelas suas convicções inabaláveis de que aquilo representa a verdade, mas como afirmar que se trata da verdade? Mesmo extrapolando para além da observação, do empirismo que permite experimentar, e os dos sentimentos, que embora sejam subjetivos são bastante “palpáveis”, retornamos ao começo, como se pode afirmar que isto ou aquilo é, ou foi real. Quando não se pode contextualizar a verdade nesses aspectos ela assume outro, que foge à realidade, adquirindo a característica de simbolismo, de metáfora, desqualificando-a de sua essência primordial, a de retratar fielmente qualquer coisa que seja: objetos, pessoas, histórias. Observar esse detalhe é indispensável quando se fala em verdade, a ausência dele permite diferenciar a verdade do dogma, ou seja, a princípio toda e qualquer afirmação é dogmática, a verdade não existe por si só, ela passa a existir ou se manifesta a partir do momento em que pôde ser comprovada, “sentida” ou experimentada, caso contrário é tão inverídica quanto uma mentira. Qualquer pessoa pode afirmar o que quiser, os palanques políticos são testemunhas, mas converter afirmações em verdades não é tão simples quanto falar, fazer promessas, ou contar histórias.

Muitas verdades são como lendas, sempre carecendo de uma comprovação, mas algumas tiveram suas formas buriladas e realçadas, ao longo do tempo foram assumindo um posto que não lhes pertencia inicialmente. Receberam a chancela, o Canon, de que precisavam para perenizar sua permanência no mundo humano, se tornaram estáveis, imunes as suas origens pagãs ou mundanas, assumiram outro “status” diante dos homens, aqueles que lhe conferiram o título da “verdade”, esquecidos da premissa acima, porém, nem as estrelas são eternas, e um dia essas “verdades” também perecerão.

A verdade e a mentira são tão inseparáveis quanto os dois lados de uma mesma moeda, e contraditoriamente quantos não se valem da mentira para alcançar a verdade. Ao longo da história humana são vários os casos de pessoas que se fizeram passar por outra para alcançar um objetivo, que poderia ser a boa verdade ou coisa pior. Quantas pessoas não se valeram ou ainda se valem desses artifícios para alcançar um amor, socializar-se, amenizar a situação de um parente gravemente enfermo, lançando mão da mentira. Aquele que nunca mentiu que atire a primeira pedra. É lógico que a mentira, não é algo para se propagar ou utilizar-se dela para benefícios espúrios. As chamadas “mentiras de pescador”, “inofensivas” são toleráveis, mas continuam sendo mentiras e, portanto, devem ser evitadas. Aparentemente fácil, evitar a mentira é dificílimo, principalmente quando se vive tutorado por ela. A grande maioria das convenções sociais humanas é forjada na mentira, inconsciente, o homem conformou-se com ela ao longo dos anos, acreditando tratar-se da “verdade”. Seduzido pela grande maioria, ele deixa-se levar pela corrente, submetendo-se as normas civis, políticas e religiosas ditadas pelas instituições, colocando-o no meio da sopa comum, que tudo generaliza, incutindo nele conceitos e linhas de conduta que se não extinguem, no mínimo sufocam sua individualidade, intuições e percepções a respeito do mundo a sua volta, porque é assim que ele se tornará “racional”, colocando-o num patamar acima do reino animal. Será? Como pode o homem, esse “animal racional”, assenhorar-se da verdade, e proclamar com certeza matemática sobre todos os assuntos que estão além de sua ciência incipiente? Desde quando, e de onde vem o conceito de céu e inferno? Quantos astronautas e exploradores de cavernas regressaram de suas incursões nos confins do espaço ou nas entranhas da terra, alegando ter encontrado Deus ou Satanás em suas moradas? Como são débeis e frágeis as verdades humanas, podem esfacelar-se diante dos questionamentos mais ingênuos, ainda assim, permanecem rijas como castelo construído sobre a rocha firme. Não há como negar o mérito, os arquitetos da verdade trabalharam e permanecem trabalhando bem, seus castelos de “cartas”, glorificando as falsas verdades. Sim, porque segundo eles a verdade é hermética, não está disponível em lugar algum, só poderá ser encontrada trilhando os caminhos que irão revelá-la aos seus súditos. É como o sucesso financeiro, colocado no degrau mais alto da escala “evolutiva” do homem, culto que tanto mal tem trazido à humanidade ao longo de sua história.

É admirável como os humanos são capazes de admitir a verdade não científica sem conhecê-la, senti-la ou experimentá-la, qual justificativa poderia explicar tal situação, como mensurar, qual o critério a ser adotado para afirmar que tal coisa se trata ou não da verdade? Essa dualidade demonstra a possibilidade do absurdo que paira sobre várias delas. Diga-se de passagem, o dito popular: “quem conta um conto, aumenta um ponto”. São muitos os casos em que a verdade é apenas um rascunho apagado de alguma história, uma representação opaca e pessoal de uma ou mais testemunhas que se esforçaram em narrar, cada uma ao seu modo, quiçá influenciadas pela imaginação, o quê ou aquilo que presenciaram. Essa transposição nebulosa dos fatos, associada ao tempo, dificilmente se aproximará da realidade. Desconsiderando que muitas verdades foram “traduzidas” para línguas totalmente estranhas as da origem do evento e por milhares de vezes. Sob essas circunstancias seria bastante natural e plausível que se questionasse a credibilidade de certas verdades. Comparativamente, é como acreditar na fala de um estranho que nunca se viu antes. Quem lhe garante a verdade? Ressalte-se que muitas são avalizadas por “Deus”, portanto, inquestionáveis. Essa notória contraposição entra as “verdades”, embora elucidativa e reveladora, põe em cheque a racionalidade humana. Ora, para quem já dispõe de alguma ciência, seria natural que as verdades não legitimadas pela experiência ou pelos conhecimentos científicos fossem postas a prova para teste. Daí surge o conflito entre a crença e a razão, que normalmente espelha as fraquezas e deficiências do comportamento humano daqueles que relutam em admitir a verdade perante sua própria razão, por mais racionais que pareçam, são incapazes de superar os conceitos e valores já admitidos. Despertar para realidade não é simples e requer esforço. Muitos se perguntam: para quê? Quando se pode continuar sonhando acordado, contemplando o eterno. É preferível deixar-se enganar que enfrentar a verdade, aprender a encarar o mundo de forma natural, sujeitando-se a dor desilusão e sendo obrigado a engolir o próprio orgulho. A crença que alimenta a esperança é melhor que destruir o encantamento dos mundos quiméricos e das utopias da salvação. Bem ou mal, várias pessoas pensam assim, a escolha é um direito que as assiste. O desprendimento é virtude necessária a todos aqueles que têm a audácia de querer conhecer e talvez alcançar alguma verdade, seja ela cientifica ou não.

A arrogância humana em torno da verdade é imbatível, a grande maioria das pessoas credita suas existências às benesses divinas, são incapazes de conceber que suas vidas podem ser meramente fruto do acaso e que se existe algum milagre em suas existência, este pode ser chamado “vida”. Admitir que o homem possa ser apenas carne e ossos, como fazem os ateus, consuma a negação do Criador e das verdades divinas, por outros lado, revelam a humildade perante as leis da Natureza, que para mesma maioria destes homens, está aqui para nos servir, considerando que homem é o centro do universo, imagem e semelhança do “Criador” que ele mesmo criou, portanto, este planeta é consequência do homem, que precisava de uma morada para criação divina, e não o contrário, quando analisados por esta ótica míope. Uma “verdade” muito conveniente para aqueles que se valem dela para justificar os maus tratos e a destruição do mundo a sua volta. Respeitar o espaço alheio é fundamental para que homem comece a entender sua própria verdade, está mais que comprovado que os métodos e técnicas de persuasão da verdade e da civilidade vêm falhando ao longo do tempo, não será fazendo parte do erro que o ser humano irá encontrar a verdade, uma vez que ela já esta posta à mesa, para ser degustada e apreciada pela razão e pelos sentimentos, que nada e nem ninguém virá aqui para revelar que o próprio “Deus” já revelou, que a tal “busca” está a menos de um passo de qualquer pessoa, e que para conseguir compreendê-la basta observar, refletir, perceber a verdade presente em cada movimento da vida. Ser livre para pensar por si só e edificar seus próprios conceitos, reformulando-os à medida que se vive. Agir de outro modo é como advogar para um assassino confesso, por mais elaborada que seja a defesa, o máximo que se poderá alcançar é uma redução da pena, mas o réu nunca estará isento da culpa de suas atitudes ou escolhas.

Será que ao ignorarmos as verdades presentes a nossa volta não estamos incorrendo no mesmo erro, advogando em causa própria, tentando encobrir os equívocos e preconceitos que admitimos como “verdades”, abrigando a mentira no seio de nossas vidas, ou pior, propagando as falsas verdades para aqueles que pela ingenuidade ou pela tenra idade se tornarão futuras vítimas de um sistema servil, que desde sempre vem fazendo uso da mentira transfigurada em verdade. Neste caso, somos todos advogados, réus e juízes, caberá a cada um ditar sua própria sentença, acatando as “verdades” que lhe pareceram mais convincentes.

Segue abaixo texto de autoria de Rui Barbosa especulando sobre a mentira.

"Mentira toda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde, segundo o Padre Vieira, que não chegou a conhecer o Dr. Urbano dos Santos, o próprio sol mentia ao Maranhão, e diríeis que hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentiras nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira dos caudilhos aos seus apaniguados, mentira dos seus apaniguados aos caudilhos, mentira de caudilhos e apaniguados à nação. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentira nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira. Uma impregnação tal das consciências pela mentira, que se acaba por se não discernir a mentira da verdade, que os contaminados acabam por mentir a si mesmos, e os indenes, ao cabo, muitas vezes não sabem se estão, ou não estão mentindo. Um ambiente, em suma, de mentiraria, que, depois de ter iludido ou desesperado os contemporâneos, corre o risco de lograr ou desesperar os vindoiros, a posteridade, a história, no exame de uma época, em que, à força de se intrujarem uns aos outros, os políticos, afinal, se encontram burlados pelas suas próprias burlas, e colhidos nas malhas da sua própria intrujice, como é precisamente agora o caso."
Associação Comercial do Rio de Janeiro
Obras Completas de Rui Barbosa. 
V. 46, t. 1, 1919. p. 31
Descritores: Mentira

Observações: Trecho da conferência "Às Classes Conservadoras". Autógrafo no Arquivo da FCRB.



terça-feira, 6 de novembro de 2012

O Revolucionário


Não é de hoje que as doutrinas, seitas e religiões, prometem a redenção aos seus fiéis, as promessas sempre se amparam nas regras de conduta que cada uma impõe aos seus seguidores, amaldiçoando todos aqueles que lhes dão as costas, condenando seus “Judas” ao calvário que estes mesmos já se encontram; seja o inferno ignorância, o purgatório do temor ou no umbral da credulidade.

Por melhor que sejam as intenções e por mais que os embusteiros se justifiquem com velhos ditos populares como:”dos males o menor” ou “é um mal necessário”, o significado do vernáculo é claro quando afirma que o mal se opõe ao bem, desviando do que é honesto e “moral”, infelizmentea morbidez dessas frases passa desapercebida pela maioria, até mesmo pelos mais eruditos e espertos, insensíveis a calamidade do que representam, dada sua popularidade e sua aspecto inofensivo. A impostura é doença epidêmica e reinante no mundo humano desde que algumas pessoas mais astutas, perceberam que uma boa oratória e um documento bem redigido poderiam exercer um poder quase ilimitado sobre os demais, utilizando-se do direito auto-arbitrado de proprietário de pretensas verdades divinas, os mensageiros da boa nova, mentores da nova ordem social, da cultura do amor e da salvação do espírito, se espalharam pelos povos do mundo como uma epidemia, muito mais devastadores que os ingênuos “xamãs” e pajés da alvorada de nossa civilização.

Tão bem engendradas são as artimanhas dos manipuladores de “mentes”, que se resguardaram da dúvida, atribuindo ao poder de intervenções miraculosas os mecanismos que utilizaram para alcançar as bênçãos dos entes superiores que lhes confiaram os segredos e ritos sagrados, um privilégio notoriamente dado somente aos “escolhidos”, seres especiais que estão acima das pessoas comuns, portadores do conhecimento dos “deuses”. Curiosamente esses profetas, que gozaram das benesses divinas, guias da bem-aventurança, em sua bondade ilimitada prometem a realização do quase intangível, da supremacia da verdade e da razão, alegando que os instintos bestiais e as limitações impostas pelo seu corpo físico poderão ser superados pelas revelações de seus espíritos, livres das fraquezas humanas. Esse processo de ascensão espiritual deve ser realmente algo muito complexo para que maioria dos seres humanos realize, afinal, quantos fiéis ou seguidores alcançaram tal iluminação, que se tenha notícia...

A inquietude que estas questões suscitam reside no fato de que se o espírito não corresponde ao homem do corpo que ele vivifica o que se é então, um rascunho, um arremedo de projeto espiritual que habita uma criatura humana buscando redimir-se dos erros de vidas passadas, almejando a evolução e a consciência do que realmente se é, ou seria esta mais uma trapaça que alimenta a esperança dos imprevidentes na busca do conhecimento de si mesmos.

Ora, se não se pode ser o que se é, cabe perguntar, como ficam todos aqueles que estudam o para-psiquismo humano, projetores astrais ou “consciênciais”, e os seguidores do espiritismo, tão criticados e desrespeitados por outras linhas doutrinárias, que alegam ser capazes de desdobrar-se e desvinculados de seu corpo físico, poder ir além de suas limitações carnais. Existem também outros fenômenos, que contam inclusive com o aporte da ciência médica, como é o caso daqueles que experimentaram experiências de quase morte, além do coma profundo, declarados biologicamente mortos, mas, que por algum motivo “voltaram”. Considerando que tais procedimentos poderiam realmente permitir alcançar o mundo etéreo, seria natural que muitos regressassem cheios de mensagens divinas, novos messias da humanidade, felizardos que puderam conhecer a verdade. Frustrante, mas normalmente não é o que acontece, quando “voltam”, são o que sempre foram, pessoas normais, alguns narram histórias de sensações de paz e felicidade ilimitadas, no máximo, lugares astrais. Então onde está o erro, todos são indignos das verdades celestiais, direito reservado somente aos profetas. De fato, a veracidade dessas histórias é incomprovável, no entanto, os fenômenos extraordinários ou inexplicáveis padecem da mesma falta de provas que as verdades doutrinárias ou dogmáticas. Na grande maioria das vezes são uma coleção de pensamentos humanos colocados a serviço da vaidade de querer posterizar-se além da morte, de interesses materialistas particulares de alguém ou de mais uma forma de doutrinação qualquer.

Mercadores de esperanças se espalham pelo mundo como gafanhotos sobre a lavoura indefesa, propagando que seus ensinamentos espelham a vontade do criador. Certamente ninguém é obrigado a segui-los, a todos é dado o direito de escolha, o livre arbítrio. Será mesmo? Os pais, muitas vezes contaminados pela moléstia da crença, induzem seus descendentes, mesmo que sem querer, a acreditar naquilo que elegeram como verdade, inconscientes de si mesmos e do prejuízo que podem causar aos próprios filhos, tolhendo mais que a liberdade de escolha, incentivando-os a seguir o mesmo caminho, repetindo o erro que lhes fora imposto, educando-os para se adequar aos parâmetros morais e sociais para que foram adestrados.

O conhecimento unilateral, tendencioso e parcial, fundamentado na clássica base maniqueísta, em geral, não leva a lugar algum, traz somente respostas prontas, ao contrário, o conhecimento deve ser plural, buscado e perseguido, não cai como “Manah” dos céus, obtê-lo permiti ao peregrino encontrar de forma isenta, lúcida e transparente, a verdade; coisa  que muitos relutam em enxergar para não ter que admitir para si mesmos a própria fragilidade de suas convicções, para não confrontar suas crenças, fundamentadas não no livre pensar, mas em um molde invisível, porém palpável, que os tornam sectários de uma forma pensar que não aflorou de suas vivências pessoais ou do mundo interno de suas mentes, mas sim de ensinamentos de uma linha doutrinária, do pensamento alheio que passaram a acolher como verdade, ignorando sua condição de crentes, venerando aquele que acreditam ser o portador da verdade.

O pensamento puro nascido no âmago do sentir e do pensar é praticamente um Nirvana. Como ser senhor dos próprios pensamentos ignorando todo tipo de influências benéficas ou nefastas que acercam o homem todos os dias de seu viver? Sinceramente, essa é uma resposta difícil de encontrar, e se alguém a encontrou reteve para si tal descoberta. A mente misteriosa mente humana onde a calmaria repentinamente cede lugar a turbulência faz transparecer a “persona” daqueles que buscam sua individualidade, é capaz de traí-los de forma tão eloquente que se torna admirável não perceberem a assinatura dessa confissão de culpa diante de si próprios perante tal manifestação.

Alguns seres inconformados com a trajetória errante dos homens, talvez sem querer, começam a instigar outros semelhantes a questionar a situação que se encontram, não raramente andando em círculos, sem sair do lugar, iludidos de que estão "evoluindo", ouvindo sempre a mesma retórica, aquela, que caracteriza qualquer processo doutrinador, impondo limites a manifestação das compreensões individuais, acautelando-se, restringindo a literatura que pode pesquisar como se todo resto se tratasse de livros apócrifos, que não atendem ao cânon desta ou daquela linha doutrinária, resvalando sempre na mesma justificativa de que e preciso macerar infinitamente o bagaço para extrair até a ultima gota do mosto, quando muitos poderiam expandir seus horizontes se si permitissem a conhecer mais de si mesmos, quebrando paradigmas e censuras internas, percebendo que o mundo a sua volta vai muito além de um punhado de livros que sacralizaram com se fossem o resumo da verdade. Abandonar essa dieta nociva que limita a percepção dos gostos e veda a oportunidade de experimentar outros sabores mais palatáveis e compensadores, favorece a busca por si mesmo e ajuda a encontrar respostas mais sensatas e balizadas nas experiências únicas de cada um.

Quais são as circunstâncias que levam as pessoas a abraçar certas causas e reagir ao “status quo”? Pessoas que mesmo sem querer acabam transformando-se num farol em alto mar, passando a orientar o caminho de muitos barcos errantes que tentam chegar ao seu destino em meio à tempestade, poupando-lhes do desastre de colidir em uma rocha fria, inerte, que silenciosamente aguarda que os incautos dêem com seus cascos frágeis na crista de seus arrecifes, encantados pelo suave coro das sereias que exibem sua beleza, mas escondem a intenção perversa de tanta doçura. A vida está cheia de sereias, alguns marujos mais calejados, sabedores dos riscos do oceano da existência, dificilmente cairão na mesma tentação dos cânticos sirénios, querendo de bom coração evitar que tal aflição se abata sobre outros navegantes. Ainda assim muitos navegadores, indubitavelmente cultos, conhecedores de outros mares, resistem em aceitar os fatos que se apresentam evidentes aos seus olhos, talvez por medo, insegurança, conforto, sabem-se lá os motivos que levam pessoas inteligentes maquiavelicamente persistirem na mesma cruzada insensata.

Que pensamentos norteiam certos comportamentos humanos alimentando-os da volúvel certeza de se estar fazendo o bem. O que poderia ser realmente o bem? Os “proselitistas” crêem que o fazem ao tentar convencer outros de que a redenção só pode ser alcançada, através do seu caminho, orientados pelo seu mestre, o mensageiro que trouxe os segredos da salvação. Essa conversa antiga, utilizada pelas doutrinas e religiões desde os tempos mais remotos, que pressupõe resignar-se a um mestre não é nenhuma novidade. Aos crédulos nunca faltarão mestres para seguir, a epifania tornou-se abundante e viceja em todos os lugares para onde se mire o olhar. Qualquer um pode arrogar-se guru ou profeta da verdade, espertos que perambulam por este mundo levando a “sabedoria” aos pobres tolos, que despercebidos da armadilha regozijam-se felizes, clamando aos quatro ventos que encontraram um caminho para verdade, ignorando que a verdade talvez já faça parte caminhada de cada um.

Chega a ser aviltante, a cobrança que algumas doutrinas fazem da gratidão para com seus mestres, quando nem mesmo Deus cobraria tanto. Uma postura autocrática que banaliza o significado da palavra, desvirtuando a magnitude de sua essência. Que cegueira mental faz com que os seguidores sejam levados proclamar infinitamente uma gratidão a outro, tão humano e deficiente quanto ele? Que nuances sobressaem nessa conduta? Demonstrar publicamente que se é grato, denotar a submissão ao seu mestre. Ora, qualquer cidadão por mais rude que seja sabe que a gratidão é um agradecimento que decorre de um sentimento interno espontâneo, não precisa ser propalado a toda hora. Bons filhos são gratos aos bons pais pelo presente da vida que receberam, no entanto, não precisam falar-lhes isto todos os dias, eles já sabem, esta virtude é refletida na própria conduta. Todo tipo de bajulação soa eminentemente falsa, pedante e artificial, revelando uma postura que se deva cumprir em subserviência a alguém, transparecendo nas entrelinhas a vaidade e a soberba, em contradição a humildade que deveria ser cultivada, sem que se precisasse reafirmar enfadonhamente isso, assemelhando-se a uma lavagem cerebral, onde mentes mais sugestionáveis sucumbem ao ritual.

Rechaçar o fanatismo é outro “clichê” comumente encontrado nesses ambientes, atirando contra o próprio pé, comprovam que ele está mais vivo e presente do que se imagina, mesmo que queiram fazer acreditar que ali se estaria livre dele. Ledo engano, nestes locais ele encontra alento e abrigo, desenvolvendo-se rapidamente e de forma ávida contamina aqueles que se achavam imunes a ele, seguros que não fazem parte desse grupo de desafortunados.

Pode-se querer ignorar que não exista um mundo perfeito, mas ainda assim todos se encontram inseridos nele, querendo ou não. Mesmo que se almeje criá-lo, iludindo as pessoas como se estas fossem da elite intelectual ou de uma outra “casta”, mais selecionada e evoluída, proclamando-se superior, denota uma condição lamentável, a daqueles que cegamente convictos se consideram mais capazes que os outros, desnudando para os demais a ignorância de tudo que os cerca, enclausurados na redoma mental que alija seus prisioneiros da convivência comum, simples, humana. Sem saber, esses pobres miseráveis cultivam o preconceito e a intolerância, a arrogância e o desprezo pelo alheio, discriminando o que é diferente, e convenientemente ridicularizando o que não conseguem compreender, simplesmente por que aquilo não converge com sua forma de pensar.

Infelizmente para estes seres o mundo esta cheio de fariseus, revolucionários que ousaram discordar e levantar durante o sermão para mostrar aos outros que qualquer coisa é passível de mudanças, mesmo aquelas que para muitos não podem ser maculadas. Para qualquer doutrina, seita ou religião, aqueles que tiveram a petulância de se rebelar aos ensinamentos foram demonizados, excomungados, banidos e execrados.

É curioso observar como atua a consciência humana, perceber a dificuldade em alcançá-la seria um bom começo, constatando a própria inconsciência, voltando-se para dentro de si mesmo para tentar superar, cada um ao seu tempo, suas deficiências e propensões, zelando pela imagem que deve estampar, demonstrando para quem nos acerca uma conduta mais louvável.

Pensar nas conseqüências das atitudes não é tarefa fácil, é como atear fogo sobre o mato seco, que se alastra rápido ao sabor do vento, foge aos limites do aceiro, queimando mais do que deveria, chamuscando a si próprio. Mas o fogo que destrói, também purifica, queimando a utopia e a ilusão da um mundo perfeito, alertando a razão que se é falho. Esse fogaréu que se consuma na observação atenciosa do que se vive, modifica a paisagem dos conceitos e valores antes ajuizados, faz brotar das cinzas outros mais novos e adequados a percepção da realidade. São testemunhos pessoais vivos de que se pode evoluir e mudar algo que está errado, encorajando aqueles a sua volta a saírem da inércia que se encontram para que tomar uma atitude em prol de si mesmos, escapando dessa complacente, perniciosa e demasiadamente homogênea, mesa de confrades, que sufoca, desestimula, enfraquece a força de vontade inata em cada ser.

Talvez um dia a humanidade se livre do “mal necessário”, lembrando que não é preciso aguardar pelo futuro, basta olhar o passado recente para identificar dos absurdos cometidos para que “fosse feita vossa vontade”. Não importa o credo ou viés ideológico que se siga, brindado pela inteligência, o homem pode, se quiser, separar o joio do trigo, resgatando desse conhecimento, tudo que há de bom. Sempre haverá esperança enquanto existirem pessoas despertas e atentas, observadores revolucionários dispostos a mudar o mundo para melhor, desafiando toda sorte de preconceitos, crendices e fanatismos, convictos de que se não tentarmos, permaneceremos eternamente estagnados acalentando o sonho de uma evolução improvável. 


Dedico este texto a um conhecido que inspirou-me pelo exemplo de sua persistência em querer melhorar algo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Lealdade



No universo das virtudes humanas, existem algumas palavras discretas, que são pouco lembradas ou comentadas, a palavra lealdade talvez seja uma delas. Alguns dicionários a colocam como sinônimo de fidelidade, será mesmo? O fato é que a lealdade parece abarcar um significado mais amplo, algo mais abrangente e controverso; uma palavra que embute a insegurança da opinião parcial daquele que observa a cena de dentro do cenário e a ótica distante da plateia, que não é capaz de compreender todo enredo até o desfecho da trama, mas que ao final pode elaborar seu julgamento a partir do que foi observado.

É interessante ressaltar que está palavra, sabe-se lá por qual motivo, ficou aparentemente imune às influências dos conceitos morais, religiosos, sociais e políticos que ditam o “bom” comportamento do homem, tanto é verdade, que os dicionários trazem em suas definições sobre a palavra lealdade, coisas do tipo:

Qualidade, ação ou procedimento de quem é leal;

Sincero, franco e honesto. Fiel aos seus compromissos

Existem muitas outras definições, mas para resumir, pode-se afirmar que lealdade é possuir honestidade, franqueza, sinceridade; enquanto o termo fidelidade exprime a exatidão em cumprir suas obrigações, em “pagar” suas promessas.

Ao contrário da lealdade, a fidelidade não teve a mesma sorte, a sacralização dessa palavra a converteu num ícone, banalizando a essência de seu significado e dando outra conotação ao vernáculo, ela tornou-se um instrumento de doutrinação, sendo empregada a todo o momento para lembrar, por exemplo, que a “fidelidade” ao Criador deve ser incondicional, impondo aos “fiéis” uma “verdade” que eles devem obedecer cega e “fielmente”, sem questionar a natureza daqueles mandamentos forjados no fogo da manipulação dogmática, do temor e do castigo celestial. O conhecimento, a vontade, o pensamento próprio e a liberdade, são uma ameaça a fidelidade, como parecem afirmar alguns que se arrogam estar acima das pessoas comuns, gabando-se de sua fidelidade ao “verbo”, proferindo sermões aos demais, do alto de sua “sabedoria”, como se ali estivessem manifestando a vontade de Deus diante dos olhos dos crédulos,que incautos à ameaça que os cerca, aceitam conformados a sua condição inferior, aprisionados pela teia da ignorância de si mesmos.

Mesmo que tudo indique que estes significados reflitam a compreensão dessas palavras no conceito comum, ordinário, podendo-se dizer, politicamente “correto”, há, no entanto, uma evidente associação entre lealdade e fidelidade, apesar disso é possível destacar algumas particularidades, a lealdade expressa de forma mais eloquente a cumplicidade, a amizade, é um pré-requisito para a outra, enquanto a fidelidade está mais relacionada ao comprometimento, fato que de certa forma restringi a aplicação do termo ao compromisso assumido, aquele que se submete em função de alguém ou de alguma coisa, é configurado numa relação de confiança, de mutualidade, que determina a qualquer um que se diz fiel, seja lá ao que for, a necessidade obrigatória de seguir uma determinada linha de conduta política, religiosa, ideológica, e que cuja pena em caso de desvio, caracteriza a mácula da traição, da infidelidade aos conceitos que anteriormente se admitiu. Poder-se-ia insinuar que a lealdade exprime uma qualidade que se dá por opção, de forma natural e a fidelidade como se resultasse de uma restrição, uma imposição.

A lealdade transparece um aspecto mais fluido, profundo e espontâneo, fato que não a isenta de também poder estar ligada a correntes doutrinárias, políticas ou ideológicas, porém como assinalado acima, essa conotação aparenta ser mais branda ou menos contundente.

Especular sobre este tema suscita tantas reflexões que é praticamente impossível não extrapolar o assunto para o legado cultural de que temos sido vitimas ao longo dos anos e que por tanto tempo vem sendo inculcado na mente dos mais novos, submetendo-os a toda sorte de preconceitos e regras de conduta que convergem com os ditames sociais e religiosos. Resiste a esperança de que essa linha comportamental venha perder força ao longo tempo, graças ao acesso ao estudo, o conhecimento e a cultura que libertam a mente desses paradigmas doutrinários e tabus. Não é segredo algum que ainda hoje exista entre os jovens um certo culto em torno da virgindade, aludindo a castidade daquela mulher que paradoxalmente foi mãe, sem nunca ter amado um homem, sendo inseminada pela providência divina, expressando o clímax da fidelidade que se presta ao Criador, como ainda fazem muitas mulheres que se entregam a vida eclesiástica.

Há também o preconceito machista de alguns homens que se vangloriam desta escolha feminina, “companheiros” de esposas que se pouparam para o “homem de suas vidas“, muitas vezes abrindo mão da própria felicidade, uma vez que pouca referência tem para elaboração de algum juízo de valor sobre o amor dado por aquele homem a quem chamam de marido, que em muitos casos não retribuem a conduta recatada de suas parceiras, ignorando o sacrifício que lhes foi oferecido, refletindo além da infidelidade conjugal, a deslealdade e a ingratidão, em nome de sua questionável virilidade masculina, muitas vezes regida simplesmente pelo instinto.

Claro que esta discussão que nos inquieta desde os primórdios da história humana tem suas peculiaridades, é interessante observar que embora seja contraditório, a lealdade e a fidelidade não são inseparáveis ou complementares como parece, uma coisa não está condicionada a outra, seria muita ousadia dizer que um casal pode ser leal e infiel ao mesmo tempo? A primeira vista parece que sim, mas ao se observar os relacionamentos ditos “modernos”, ou aqueles chamados “abertos”, “liberais”, a ótica sobre o assunto muda de ângulo. O tal “swing” ou troca de parceiros, é a infidelidade consentida e participada de cada membro deste relacionamento, em que houve um consenso anterior onde ambos concordaram com as regras do jogo, portanto, se foi pactuado, não houve traição. Neste caso, a infidelidade não está desassistida da lealdade, afinal, poder-se assumir que deslealdade ou ser desleal consiste em fazer algo escuso, sem o aval ou consentimento moral do outro, uma dedução simples, mas que traz a reboque a lógica que lhe é inerente, desmistificando a sagrada fidelidade e desvencilhando-a da lealdade.

Outro aspecto relevante que paira sobre a distorção do significado de fidelidade é aquele que incute sobre esta palavra a ideia do egoísmo, algo que é comparável ao vínculo que se faz a um juramento ou uma promessa. Os seres humanos tem uma inclinação natural a querer “possuir” coisas além daquilo que chamamos material, não é raro observar que o ato de possuir extrapola do objeto para a pessoa amada, “beltrano é meu”, “fulana é minha”, em resumo, na vida a dois, por mais que um queira pertencer ao outro, essa conduta possessiva e exclusivista adquire um contorno materialista, o do direito de propriedade; neste comentário não está se aludindo ao adultério ou coisa parecida, mas sim ao que interessa, a divergência entre a fidelidade e a lealdade. Não é difícil perceber que na vida de um casal, independentemente se terceiros são ou não bem vindos, que existe uma discordância  entre o “eu” e o “nós”, “meu” e “seu”; a fidelidade não embute em seu significado esta abrangência sobre a cumplicidade do sentir e do pensar que devem reger uma relação sadia entre duas (ou mais)* pessoas. Num relacionamento saudável ninguém precisa concordar sempre com o outro ou baixar a cabeça às vontades de um dos lados, que o digam as mulheres, notoriamente, algumas ainda são vítimas, subjugadas a força a este tipo de situação. A lealdade não cobra do parceiro a obrigação do compromisso assumido, como evidencia a fidelidade, ao contrário, está balizada no equilíbrio, na sensatez, na vontade de querer o melhor para sua cara metade, ela é celebrada quando ambos alcançam o objetivo juntos, de forma serena, tranquila, sempre respeitando os limites do outro e os valores celebrados entre eles.

* A palavra fidelidade é de certa forma exclusiva, no âmbito familiar seu uso se limita praticamente ao casal, excluindo os filhos e parentes de merecedores dessa qualidade, no entanto, a lealdade não. Qualquer pai, mãe, filho ou parente podem ser leais entre si, e embora não seja usual, também fiéis às pessoas e aos princípios morais que norteiam as boas atitudes no convívio familiar e social.

Uma pessoa leal constrói dentro de si uma base sólida de valores e conceitos éticos que a tornam em primeiro lugar fiel a si mesma, as suas ideias e convicções, mantendo-a sempre aprumada, consciente de que a traição principia internamente, no pensar e no sentir, dentro de cada um, local em que suas consequências podem ser contidas, resguardadas do mundo real, portanto menos danosas. Submeter-se a essa provação faz parte da vida, gratificando o ser humano de que ele é capaz de superar seus instintos e deficiências. A tarefa pode ser árdua, mas não é impossível, desde que se queira vencer o comodismo e a superestimação, aproveitando o teste para averiguar a quantas anda o nível de racionalidade e como está o domínio sobre a impulsividade. Tudo isso faz rememorar que embora homem não seja perfeito, não deve se entregar passivamente para as fraquezas que o assolam e descambar para a libertinagem. A exteriorização destes pensamentos e sentimentos materializa a traição, a falta de lealdade com si mesmo e com os valores que num certo momento se acatou livremente por opção, convicto de que se tratava da melhor escolha. Essas atitudes muitas vezes impensadas configuram o desprezo pela confiança concedida e demonstram a ruína da própria dignidade, é olhar para o espelho e ver refletida a fraqueza do caráter, a falsidade, a falta de comprometimento com aqueles que acreditaram em alguém que não merece o respeito que recebe, para aqueles que possuem alguma consciência, é relembrar que se é desleal.

Lealdade e fidelidade. Duas palavras complexas e controversas, principalmente fidelidade, a quem estão associados uma variedade de aspectos culturais que influenciam sua interpretação de acordo com as convenções sociais e religiosas locais, enfatiza que não importa como elas serão empregadas, o que importa é compreender seus significados e se possível, colocá-los em prática. Ser leal é simples, é guardar um segredo, estender a mão que acode, ser discreto e educado, resumindo, basta fazer o bem, é suficiente. Qualquer conduta de bem, provavelmente, levará a fidelidade aos bons princípios a culminar nela própria, como consequência de uma postura leal.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Instinto



Desde a antiguidade vem-se tentando estabelecer um consenso sobre um dos assuntos mais controversos da história humana, portanto qualquer ensaio sobre este tema tão complexo seria apenas mais uma gota num oceano de reflexões e contradições que vem ocupando muitas mentes brilhantes ao longo da caminhada humana na busca por respostas. Tecer considerações sobre o instinto curiosamente remete a uma profunda auto-observação da conduta pessoal, neste caso, servindo como baliza para redação de qualquer coisa útil, algo que pudesse agregar algum valor as pessoas interessadas sobre esse incógnito, e quem sabe, trazendo alguma reflexão nova.

De acordo com os dicionários é um estímulo ou “impulso” natural, involuntário, através do qual animais e também homens praticam certas ações sem saber os fins ou propósitos destas atitudes. Essa definição embora sucinta e um tanto simplista, incita uma seqüência de interrogações sobre este assunto. Será mesmo que o instinto se manifesta de maneira involuntária como afirmado acima? Poderíamos acatar essa explicação partindo da premissa que ela abrangeria somente o comportamento animal, ainda assim cabe perguntar, seria possível um ser humano agir de forma involuntária em condições normais, sem que houvesse a intervenção de um centro nervoso mais elaborado como o cérebro? E a consciência, onde ficaria nesta história, afinal essa não é uma das características de ser racional, possuir um motivo, uma “razão” que dispare uma reação muscular frente a um evento ou ameaça? Atribuir aos instintos uma responsabilidade sobre atitudes inconseqüentes, inoportunas e imponderadas configuram mais que esta “inconsciência”, é uma síntese do sonambulismo. Essa paralisia cerebral que muitas vezes culmina nas atitudes mais bizarras, sugere que a bestialidade humana lamentavelmente pode ser consciente, ou seja, exceto os sonâmbulos, o restante da humanidade age desperta, e se movimenta “acordada”, biologicamente, da mesma forma que os “animais”, animados por milhões de impulsos nervosos comandados pela parte “superior” do encéfalo. Seguindo o conceito biológico, que compreende o homem meramente como um animal enquanto criatura viva, essa afirmação não parece nenhum absurdo dependendo da ótica utilizada para analisá-la, principalmente quando se constata que ele pode ser regido pelos instintos em alguns momentos, assim como uma marionete a mercê de alguma força primitiva rompante. Em quantos casos percebe-se que essa justificativa é muito conveniente, delegar aos instintos ou alguma alteração psíquica a conseqüência dos comportamentos errôneos, ou da expressão da maldade humana, tratando isso como se fosse algo involuntário, é infelizmente, bastante comum.

Tal assunto, de tão labiríntico, exige mais que divagações superficiais sobre ele, não dá para abordar o aparentemente simples “instinto” sem se calçar de alguma informação mais elaborada, que tenha sido martelada ao longo dos tempos, no entanto, sem que se conseguisse molda-la ou chegar a uma unanimidade, uma explicação definitiva sobre ele.

Um dos primeiros a se pronunciar sobre ele foi o filósofo grego Sócrates (469 – 399 a.C.), ou seja, há mais de dois mil anos busca-se uma definição sobre o que seja instinto. Será que na busca pelo racionalismo Sócrates almejasse a posição de precursor de uma nova cultura, de uma nova etapa da humanidade, onde os princípios basilares constituíam-se do emprego da inteligência subsidiados pelo absolutismo racional, evitando ao máximo as manifestações dos instintos humanos, aquela energia que movimenta o homem e pode levá-lo a demonstrar seu lado mais sombrio, seus sentimentos mais primitivos? Esse questionamento foi  fundamentado simplesmente na forte ênfase socrática para utilização da razão e suscita outro em paralelo; o racionalismo radical seria um mecanismo subjetivo de auto-afirmação pessoal buscando uma forma de controlar as manifestações destes anseios “animais”? Partindo-se do pressuposto que a manifestação do instinto atenta contra a “consciência”, que além de ser uma prerrogativa humana, é também um referencial muito importante para o mundo filosófico. Talvez Sócrates soubesse respondê-la.

Discípulo de Sócrates, Platão (428 – 347 a.C.) elaborou sua concepção a respeito do ser humano, que compreendem uma parte material e outra etérea, que seria sua parte divina, conforme afirmava ele, atribuindo a ela um caráter imutável, enquanto a física, sucumbi aos efeitos do tempo e de sua própria condição, submetendo-a a constantes alterações. Segundo ele, nascemos com alma “perfeita”, mas não temos consciência disso, essa perfeição se refletia então nas verdades essenciais que estão gravadas indelevelmente na alma de cada um, mas devido às restrições do corpo físico, esses conhecimentos são “esquecidos” ao nascer. Segundo Platão a alma é dividida em três dimensões, uma delas, a do ser vivo, designa que o ser humano enquanto criatura vivente possui dois instintos naturais, o de sobrevivência e o de reprodução, que também é comum aos outros seres vivos.

Quais foram as observações que conduziram Platão a estas conclusões? O que levou ele a atribuir somente à fisiologia humana a responsabilidade pela procriação o a manutenção da vida? Por exemplo, dissociar o sexo e a fome das virtudes associadas ao intelecto é até razoável, mas seria justo? Teria ele estabelecido uma analogia com a sensação de satisfação e paz que se experimenta após o orgasmo ou a alimentação, sensação esta que serena, pelo ou menos momentaneamente, a tensão que impulsiona a manifestação destes instintos humanos. Aparentemente, para ele, os instintos seriam parte dessas restrições que o corpo impõe sobre a alma.

Durante idade moderna, surgem novas compreensões sobre os instintos, mais adiante na idade contemporânea o nascimento da psicologia trouxe novos ares e mais dúvidas sobre o controvertido assunto, apresentando uma nova série de considerações e interações para se questionar.

Coincidência ou não, o fato é que Freud (1856 – 1939) também dividiu o aparelho psíquico humano em três partes básicas, assim como Platão havia feito com alma humana dois mil anos antes. Freud nomeou estas partes como Consciente, Pré-consciente e Inconsciente, alegando que há conexões interligando todos os eventos mentais, no entanto, aqueles pensamentos ou sentimentos que aparentemente não estão relacionados a uma ordem de precedência estariam conectados ao inconsciente. Segundo o pai da psicanálise, o inconsciente abriga os elementos instintivos, que são alheios a consciência, e também os pensamentos reprimidos e censurados pela moral e pelos costumes, inculcados pela cultura vigente em que o ser se encontra inserido, mais os traumas. Ainda segundo Freud, esse material psicológico não é esquecido, mas apenas mascarado pela consciência que reluta em admiti-lo. Apesar da nomenclatura, o “inconsciente” freudiano não é estático e indiferente, existe vida no seu material, mantendo as memórias intactas, sem comprometer seu fator emocional, aspecto observável quando por algum motivo,  estas afloram. Paradoxalmente Freud acreditava que grande parte da “consciência” era “inconsciente”, que vários traços da personalidade humana, os impulsos (pulsões) e a energia psíquica são manifestações do inconsciente.

Para Freud os instintos ou pulsões humanos diferem daqueles que orientam o comportamento animal, entretanto, enquadra os instintos como necessidades físicas, muitas vezes suplantando a racionalidade.

Ele afirmou que o instinto possui quatro componentes característicos: uma fonte, uma pressão, um objeto e uma finalidade. A fome pode ser um exemplo banal, mas é bastante ilustrativo. O corpo carece de energia, então necessita de nutrientes para mantê-lo, “a fonte”. Quanto maior for a necessidade de energia, maior é a “pressão” que aflora à consciência, então sente-se fome. Essa sensação tende a aumentar até que a fome seja satisfeita pelo “objeto”, neste caso, a ingestão do alimento (da comida), atendendo consequentemente sua finalidade.

Interessante na observação freudiana é a vinculação do instinto às necessidades do corpo físico como força motriz inicial, contudo desassocia a consequência do movimento do estímulo biológico primário nos seres humanos. Deste raciocínio ele deduziu que o mecanismo para um ser humano satisfazer seus instintos está mais associado aos seus anseios psicológicos, que podem ser conscientes ou não, influenciados por uma série de fatores de natureza individual, como valores morais, éticos, religiosos, hábitos, possibilidades, etc.

Fundamentando-se no comportamento mental padrão, que presumi uma pessoa normal e saudável, Freud elencou uma diversidade de instintos, mas direcionou sua atenção para o que ele chamou instintos básicos, constituídos de duas forças instintivas contrárias, a sexual, fisicamente gratificante, e a agressiva ou destrutiva, sendo que primeiro sustenta a vida e o segundo ocasionalmente pode levar a morte, geralmente atuando, na maioria das vezes, de forma subliminar, sem que se perceba, agindo sobre os pensamentos muitas vezes de forma conjunta. A primeira força ele atribuiu a atuação da “libido”, desejo em latin, a segunda não recebeu nenhuma nomenclatura especial.

Em consonância aos conceitos de consciente, pré-consciente e inconsciente, Freud propôs os três elementos básicos da pisque: o Id, o Ego e o Superego. Embora todos sejam importantes, o primordial na atuação dos instintos é o id, que é inato, abrangendo tudo que herdamos, é intrínseco ao ser e aos instintos, decorrem de seu próprio corpo e se manifestam psiquicamente através de sistemas incógnitos, constituindo a personalidade mais primitiva, natural do homem, sujeita as necessidades do corpo, do ego e do superego. Em suma o id abriga o inconsciente, seus sentimentos e desejos mais profundos repelidos pela consciência, ou nunca experimentados por ela.

O Ego corresponde a parte psíquica que interage com o mundo externo, derivado do Id, ele vai moldando a personalidade do ser a medida que este desenvolve sua “consciência”, sua noção do “eu”, aprendendo a controlar as manifestações do Id (pulsões), mantendo sanidade mental. Atuando como intermediário entre o real e o mental, cabe a ele associar as respostas físicas às informações captadas pelos sentidos, zelando pela integridade do ser enquanto criatura biológica vulnerável aos agentes externos e internos não só físicos, mas também psicológicos, filtrando os estímulos de natureza sensível, preparando-o para se integrar convenientemente a vida. Essa interação entre o Id e Ego, é fundamental para amenizar a manifestação dos instintos, racionalizando se a pulsão dever ser ou satisfeita e quando.

O último componente deste trio, o Superego como próprio nome indica está acima do Ego, ele age como árbitro mental julgando os pensamentos oriundos do Ego, onde segundo Freud ficam armazenados os valores morais, conceitos e condutas sociais cerceando os excessos da personalidade sob a atuação da consciência, da observação de si próprio em conformidade com as concepções que foram elaboradas no íntimo de cada um.  

Apesar de configurar-se como a manifestação da consciência individual e censor, o Superego pode também ser vitima da inconsciência, sucumbindo às compulsões que atuam na mente de forma indireta. Mesmo estando sujeito a algumas fragilidades o Superego enquanto estrutura da personalidade está menos suscetível as pulsões do Id (instintos) constituindo um elemento fundamental para reduzir as tensões decorrentes dele, sobretudo no que tange ao conceito das projeções, formadas a partir da manifestação inconsciente dos desejos sobre a percepção consciente, aludindo ao fato de que parte do comportamento humano pode ser acarretado por atitudes inconscientes.

Mesmo que muito do que Freud tenha dito não corresponda aos conceitos mais atuais da psicanálise, ele como um dos precursores desta ciência que abriu as portas da mente humana tentando revelar os seu mistérios, deixando um legado inquestionável sobre a manifestação dos instintos, apesar das contradições.

As observações sobre a psique humana são um assunto tão vasto que talvez seja impossível esgotá-lo completamente, talvez porque à medida que vão se desvelando os segredos da mente outros emergem a superfície reiniciando novamente o ciclo a partir deste. O que de fato tem sem observado na prática é a interação entre os princípios filosóficos, psicológicos e empíricos, trazendo aos pesquisadores uma nova ótica e resultados mais satisfatórios sobre o comportamento humano no que se refere aos instintos. Essa abordagem tentando esboçar minimamente esse aspecto do comportamento humano demonstra quão difícil é compreendê-lo. Se os estudiosos enfrentam desafios desta grandeza, imaginar a situação das pessoas comuns frente à manifestação dos instintos seria então uma covardia; mas é preciso encontra alguma forma de enfrentar sua ditadura, superar os obstáculos internos que levam a essa submissão inconsciente, deve-se lutar contra ela através do conhecimento de si mesmo sem que se precise apelar para os dogmatismos, conceitos e convenções inculcados pelas crenças e religiões, que percebendo a prevalência dos instintos sobre a razão, não demorou a criar mecanismos que pudessem sobrepujá-los, de que forma, associando a eles a vontade do divino, de um ente superior ao ser humano, dando a conotação de que o desrespeito a estas regras constituiria a desobediência a vontade do Criador, condenando o homem a sua incurável imperfeição, ao limbo da existência, descrente de sua própria capacidade de se superar e redimir.

Independentemente de como deverá se processar esse embate, o fato é, em função da racionalidade humana a prevalência da razão sobre os instintos é mais que uma obrigação, é a confirmação da condição humana de pensar, por que caso contrário, estar-se-ia assumindo outra condição, a de inferioridade perante o que há de mais primitivo existente no comportamento humano, quando deixar-se reger pela impulsividade consuma de forma irrevogável a situação “animalesca” a que se está submetido. A gravidade deste quadro se acentua quando se observa a consequência da atuação de suas manifestações mensurando seus resultados desastrosos. Não é difícil identificar na própria vida como podem ser devastadores os efeitos do instinto, não raramente, mergulhando sua vítima num quadro que pode ir muito além do simples arrependimento e da depressão ocasionados pela tomada de atitudes impensadas. A atuação dos instintos podem trazer comprometimentos jurídicos e eventualmente até a própria morte, exemplificada tantas vezes na tragédia que muitas brigas de trânsito se converteram para seus atores, tanto agentes, quanto vítimas, em que o saldo comum é que ambos os lados saem perdendo; tornaram-se presas fáceis do instinto.

É triste constatar que apesar de toda cientificidade sobre o assunto, grande parte dos seres humanos continua escrava de seus hormônios e necessidades físicas não vitais, permitindo que estes se sobressaiam sobre valores pessoais assumidos pública ou individualmente perante si mesmo, que deveriam balizar e nortear a conduta ética e moral humanas, traindo a si próprios, suas convicções e aqueles que confiaram. Acontecimento notório que desgraça muitas vidas que quiseram se aproveitar de um momento furtivo, instante esse que pouco ou quase nada agregaram a formação deste ser inconseqüente dos riscos a que se expôs.

Não se trata aqui da repressão deliberada aos instintos humanos, mas da importância que deve ser dada ao pensamento e a razão antes de entregar a manifestação deles. A autoridade da consciência é primordial para que se possa no mínimo almejar um domínio sobre eles, e essa obediência poderá ser obtida na medida em que cada um seja capaz de tornar-se senhor de si mesmo, de aprofundar-se dentro do “eu” individual, averiguando quem está no comando da situação, e a seu juízo fazer a escolha que julgar conveniente. Pelo ou menos, assim, não caberão justificativas para si mesmo.

O agir influenciado pelos instintos nivela o ser humano por baixo, levando-o a bestialidade, ao não pensar. É precipitado e imediatista, representado pelo querer puramente irracional, sem a substância ou o conteúdo da razoabilidade, sucumbindo a vontade primitiva, como um animal qualquer, neste aspecto ele é igualitário, destruindo a individualidade, remetendo o homem a vala comum da indiferença, que significa a perda do direito de escolha sobre seus atos, a subserviência cega as aspirações físicas e biológicas, confirmando a ausência de lucidez que se está imerso. Essa entrega perniciosa corrompe as estruturas mentais em prol de um comodismo que enfraquece o esforço de evolução e no mínimo engessa a racionalidade, sujeitando o ser humano a falta de civilidade que inviabiliza convívio social em certas ocasiões.

É preciso salientar que a liberdade de expressão e a espontaneidade em nada podem ser comparadas às manifestações do instinto. São coisas divergentes em suas origens e suas essências, não devem ser confundidas de maneira alguma, essa confusão consistiria no consentimento de que as coisas podem ocorrer ao bel prazer da inconsciência, esse comportamento mergulharia a sociedade humana numa anarquia regida pela bestialidade e pela força bruta, tornando-a escrava dos próprios instintos e ainda mais sujeita a barbárie que assola a humanidade periodicamente, tolhendo aquilo que o homem tem de mais nobre, a capacidade de pensar por si só. Controlar as pulsões e optar pelo caminho correto, o menos tortuoso, aquele que só se pode explorar quando é percorrido acompanhado da observação e da inteligência, que devem atuar de forma ampla e irrestrita, concede ao andarilho a possibilidade de reconhecer qual das alternativas é verdadeiramente boa, imputando a cada um a responsabilidade de suas próprias escolhas, feitas à luz da consciência e não somente sob a influência dos instintos.