quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A Tábua de Salvação


  O texto abaixo consiste de um diálogo leve e descontraído, merece ser lido pelas reflexões que suscita, por isso foi "postado" aqui. Marcos Barbosa também redigiu outras obras interessantes. Mais informações sobre o autor encontram-se ao final do "post".

A Tábua de Salvação


Cenário: Uma praça no centro de uma cidade, com uma placa ao fundo: PRAÇA DA CONQUISTA.


O professor, de 51 anos, anda com um prego e um martelo na mão para um lado e outro, na Praça da Conquista.

Jamila é uma moça de 21 anos, pregadora, chega portando uma Bíblia debaixo do braço e começa o diálogo.
-Jamila: Professor, o que o Sr. Está fazendo com este prego e este martelo na mão?
-Professor: O mesmo que você está fazendo com a Bíblia debaixo do braço.
-Jamila: Como Professor? Eu estou com a Bíblia e vou fazer uma pregação e o Sr. vai fazer o quê?
-Professor: Uma pregação também.
-Jamila: Aonde? Aqui na praça agora não pode porque é a minha vez e é chegada a hora de pregar a palavra do Senhor.
-Professor: Fique tranqüila minha filha, pode pregar à vontade porque eu ainda estou procurando a minha Tábua de Salvação, onde eu vou pregar o meu prego, com o meu martelo.
-Jamila: Aaaah!... Professor... O Sr. está parecendo aquele filósofo que saiu procurando um verdadeiro homem com uma lamparina na mão, em pleno dia, na praça de Atenas.
-Professor: Diógenes, nascido em Laerte, filósofo estóico... (o Professor fala o nome do filósofo em tom professoral, de quem está dando uma aula...
-Jamila: Obrigada pela lembrança Professor... É isso mesmo mas... (faz um gesto de quem vai iniciar uma pregação e é interrompida com a continuação da fala do Professor).
-Professor: ... A diferença é que ele estava procurando um homem e eu estou procurando a minha Tábua de Salvação.
-Jamila: Me diga uma coisa Professor... O que significa esta nova alegoria que o Sr. está lançando em plena Praça da Conquista? (Ao perguntar, a pregadora faz aquele “ar” de estudante universitária do interior do Maranhão.)
-Professor: É muito simples... O martelo representa a minha ignorância. O prego representa as perguntas que eu faço para a vida, à natureza e tudo que está à minha volta. A Tábua de Salvação é a própria natureza, o universo, DEUS, tudo que é desconhecido e que me causa inquietação espiritual. Esta curiosidade interminável é que me dá forças para o trabalho de expansão da consciência da realidade.
-Jamila:Mas o Sr. pode fazer tudo isso aceitando Jesus como seu salvador... Aí o Sr. não precisa mais procurar uma Tábua de Salvação.
-Professor: Vamos com calma menina... Jesus é um grande filósofo, mas não é mágico.
-Jamila: Mas então o Sr. não aceita Jesus como seu salvador?
-Professor: (ignorando a pergunta, mas sem arrogância, continua)... Cada vez que  eu tenho uma dúvida, ou quando alguma circunstância da vida me leva a reflexão filosófica, eu pego a minha ignorância, (levantando o martelo), aponto a minha pergunta, (mostra um prego), ou minhas perguntas, (retira um punhado de pregos do bolso) para a Tábua de Salvação e começo a pregar.
(Sob os olhos assustados da pregadora, de Bíblia na mão, aparece misteriosamente um anjo com uma tábua cheia de pregos. Através de gestos e tocando um no outro com cordialidade, professor e anjo demonstram bastante intimidade, sem trocarem nenhuma palavra. Enquanto isto a pregadora se recua e fica olhando a cena, de longe, bastante assustada. Juntamente com a cena ouve-se uma música clássica, que pode ser Carmina Burana, ou a mensagem oposta contida na Nona Sinfonia de Beethoven. Enquanto se toca a música, em alto volume, a cena de profunda amizade continua entre o professor filósofo e o anjo. Agora eles  já se falam mas não são ouvido pela platéia. Seus gestos e palavras que continuam não sendo ouvidos pela platéia acompanham o ritmo da música. Ao mesmo tempo, parece que tudo acontece em câmera lenta. Seus gestos e palavras inaudíveis interpretam a mensagem da música. O anjo e o filósofo  dançam solto, fazem gestos de maestro, como quem comanda uma orquestra. Esta parte vai depender da criatividade dos atores. A Jamila, que estava assustada num canto, do meio para o fim da música vai demonstrando afeição pelo filósofo e o anjo, vai se aproximando aos poucos, até  se entrosar com os dois velhos amigos. A peça termina com eles conversando animadamente, mas as palavras deles não podem ser ouvidas pela platéia, que só consegue ouvir a música. Os atores devem fazer o possível para interpretar a música, para que fique mais atraente, principalmente se esta peça estiver sendo apresentada a um público pouco afeiçoado à cultura clássica.
Para terminar, os três se despedem com beijinhos no rosto, Jamila e o anjo saem e o professor fica agradecendo os primeiros aplausos, abraçado com a tábua da salvação, que na despedida foi entregue solenemente pelo anjo. Ato contínuo os dois voltam a agradecem os aplausos da platéia ao lado do Professor.


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