segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Consciência



  Consciência, privilégio dado aos seres racionais, muito mais que uma condição, um estado de espírito. Devida suas características transcendentais pressupõe uma percepção e acuidade dos sentidos humanos num patamar tão abstrato que a torna quase intangível. Pairam sobre essa palavra uma miríade de conceitos, definições, opiniões e contradições. A quem chegue a questionar a necessidade da racionalidade para a comprovação da consciência, existem suposições que facultam a outros seres vivos, chamados irracionais, a possibilidade de experimentar motivados pelo instinto, um estado primitivo de consciência. Como se pode notar, o assunto é de fato controverso, nebuloso e abrangente. Seria ousadia demais tentar abarcar num simples texto parte das peculiaridades que lhe são inerentes, contudo é possível tecer algumas considerações sobre o que seja consciência.

  A palavra consciência é empregada cotidianamente nas mais comuns e triviais atividades como parte corriqueira do vocabulário, é geralmente usada no sentido de conhecimento, noção, tomar ciência, consentimento, aprovação, etc, frequentemente respaldado por algum valor moral ou religioso. Mas acepção deste nobre vocábulo insinua um desígnio mais elevado, aquele que concede ao homem a capacidade de se reconhecer enquanto criatura pensante, que é mais complexo, possibilitando aprender, conhecer, experimentar e examinar as conseqüências de seus atos e sentimentos frente às outras pessoas e ao mundo, permitindo a própria percepção da individualidade humana, que torna cada ser racional, único, em todo universo, supondo a inexistência da dualidade “consciencial”.

  Desde a assimilação da concepção de consciência pelo intelecto humano, instigados inicialmente pelos aspectos metafísicos que lhe são intrínsecos, vem-se buscando compreender os mistérios acerca da raiz dos pensamentos do homem. Mesmo que se remonte a história aos tempos pré-científicos, não é possível ir muito além da Grécia antiga, berço da filosofia. Difícil especular porque os gregos tiveram essa propensão a questionar as idéias a respeito do mundo e as interações do homem com ele, mas foi contundente o bastante para mudar os rumos da humanidade desde então. Talvez não tenham sido somente eles, mas é certo que eles fizeram aflorar naquele momento mais que o pensamento, mas também os conceitos oriundos das reflexões sobre a natureza e as origens do homem. Quando o matemático fenício Tales de Mileto, fundador da escola Jônica, transmitiu aos discípulos suas compreensões sobre a Terra e sua astronomia, uma vez que não nos legou nada escrito, iniciou um movimento humano incessante pela busca sensata de respostas.

  O empreendimento desta jornada infindável a procura do real significado da consciência tem esbarrado ao longo percurso em todo tipo de obstáculo cultural, histórico, religioso, teórico, contemporâneo e anacrônico.

  A célebre frase de René Descartes “penso, logo existo”, suscita a o questionamento que lhe é inerente. Desde a mais tenra infância até a percepção do “eu”, que delimita a individualidade humana, consubstanciado no sentimento da autoconsciência, aquele que faculta a cada pessoa o próprio reconhecimento através da ocupação de seu espaço frente ao mundo e aos outros seres com quem interage. A compreensão dessa linha divisória é imprescindível para o reconhecimento individual, ela permite identificar-se dentro de um contexto mais amplo, o da natureza que nos envolve. Como consequência das experiências pessoais, vão sendo construídos os conceitos que erigem as compreensões a respeito do que é observado e vivenciado. Naturalmente ao longo do tempo esses valores tendem a se modificar influenciados meio onde cada um habita e desenvolve seus juízos a respeito do mundo. Esse aspecto fundamental não deve ser ignorado em momento algum da jornada pela vida, porque dele derivarão o substrato duro ou permeável onde crescerá a consciência. Caso seja duro ou impermeável, a consciência o refletirá, tornando-se inerte e refratária a mudança e ao novo, o contrário, no entanto, permite a absorção de novas ideias e concepções a respeito do que se vive.

  Cada vez mais se percebe a busca pela informação, pela cultura, a tecnologia moderna propicia a um número incontável de pessoas o acesso ao conhecimento, extrapolando os limites geográficos das distâncias e do tempo que antes isolavam o saber humano em “tribos”. A derrubada dessas restrições concedeu as pessoas uma interação nunca antes vista, hoje a vastidão do planeta se resume a um apertar de teclas, não se justifica mais a alienação decorrente da contingência das fronteiras impostas pelo horizonte, que contido, resumia a esfera terrestre ao plano que podia ser observado. Bem aventurados sejam o ventos que trazem a qualquer um a brisa do saber, provendo o direito de se aventurar além do mundo concreto, palpável e plausível, fazendo progredir a consciência para o quê a caracteriza primordialmente, a sua origem enigmática.

  Reflexo das experiências acumuladas ao longo da jornada da vida, das concepções do bem e do mal, qualquer um está sujeito as suas próprias deficiências e propensões. É fácil se iludir, a natureza humana convida ao conforto e ao comodismo das verdades prontas, ignoto dessa condição muitos se deixam levar pelos conceitos alheios, atordoando os sentidos que buscam no conhecimento íntimo os ingredientes que misturados aos experimentos individuais culmirão na verdade obtida a partir das reflexões do próprio “eu”. Vítimas do senso comum, que escraviza e enfraquece a vontade, o homem se torna presa fácil de um modelo que lhe impinge uma barreira mental que não consegue transpor, produto do adestramento no qual se internou inconsciente de sua própria consciência.

  Formatada no molde existencial de cada um, a consciência expressa em si mesma a realidade em que a criatura humana se encontra exposta, consumada na declaração de Rousseau, “o homem é fruto do meio em que vive”, que também afirma que homem nasce “bom”, sendo corrompido posteriormente pela sociedade, ressalta a importância do zelo para com ela, não só como característica do psiquismo humano, mas como algo mais abrangente que a própria vida, considerando suas possibilidades metafísicas.

É inevitável fazer uma associação do conceito de inteligência emocional à consciência. As emoções humanas, que se constituem basicamente de sentimentos não podem ser ignoradas como coadjuvantes no processo de construção da consciência, simplesmente porque é praticamente impossível se desvencilhar delas ao raciocinar, refletir e compreender um novo pensamento ou conceito. Mensurar de forma hábil, imparcial e centrada as questões que são apresentadas pela vida não é tarefa fácil, a suscetibilidade aos sentimentos e estímulos de terceiros, intervém em nosso juízo comprometendo a clareza de pensamento tão necessária a identificação das experiências da vida. O mau uso das emoções prejudica a capacidade de filtrar as informações turvando o pensamento e o raciocínio. Ser capaz de controlar as variações emocionais, que ora se apresentam reprimidas, é um aspecto preponderante para o exercício pleno da consciência. Sucumbir ao sentimentalismo atrapalha o processo de autoconhecimento, principalmente quando essa condição implica na supressão das compreensões individuais. Muitas vezes essa anulação decorre simplesmente do medo em confrontar uma realidade onde podem estar inseridos outros seres humanos na qual se está envolvido, anulando as percepções oriundas da própria cognição. A necessidade de inter-relacionar não impede que se façam as próprias escolhas, através da inteligência, da educação, gentileza e afabilidade é possível contornar os entraves culturais, religiosos ou ideológicos, alcançando o sucesso na busca pela consciência, embora muitas vezes os argumentos sensatos, por mais inquestionáveis que sejam, esbarrem na nefasta barreira dogmática, configurada pela miopia mental que aflige os sectários.

  Tratando propositalmente com superficialidade os assuntos correlatos ao desenvolvimento da consciência individual, as religiões, crenças e doutrinas tendem a oprimir qualquer corrente de pensamento que ouse se rebelar contra suas verdades absolutas, esses opressores da atuação da consciência condenam e execram toda e qualquer forma de manifestação autônoma, justificando sua atitude na irrefutável vontade do aclamado ente superior. Mais que um direito, o questionamento é intrínseco ao processo de evolução humano, a negação do questionamento constitui-se por si só na renúncia a busca pela verdade, configurando a inquestionável dogmatização, que associa sempre que possível a perfeição a uma consciência superior, reservando somente aos crédulos e “dignos”, um espaço para o conhecimento das verdades de si mesmo e sua redenção.

  O cerceamento a reação é uma característica comum em qualquer processo doutrinário, visando nada mais que resguardar e manter imaculada a integridade de seu conteúdo, desdenhando outras fontes do saber, como se sua autoria constituísse a revelação de alguma divindade, ou de um ser iluminado, certificando-se de tratá-la como obra de algum emissário abençoado, aludindo a alguém mais evoluído que as pessoas comuns. Essa impostura configura-se na intransigência a manifestação da razão pela busca da verdade, tão necessário ao processo de modelagem de conhecimentos que poderão fazer parte da consciência. A admissão desse conceito assinala de forma indelével a sujeição do indivíduo a sua condição de incapaz de consentir suas próprias percepções, tolhindo-lhe mais que a liberdade de escolha, mas a reboque, também sua consciência, que anestesiada pelos dogmas torna-se incapaz de manifestar-se balizada pela razão, uma vez que, inadvertidamente, já admitiu sua própria condição de inferioridade perante aquele que ela mesma elegeu como ente superior.

  Qualquer tipo de sectarismo, que eleja seus messias, gurus ou mestres, demonstra a submissão à “verdade revelada”, independente do teor da mensagem transmitida, evidencia como sempre o condicionamento, a doutrinação, inibindo a livre atuação da consciência e da percepção da verdade. Atuando de forma sutil, transparente, praticamente invisível às faculdades de sentir e perceber daqueles que ingenuamente se acham capazes de pensar por si só.

  Ao dotar o homem de consciência a “natureza” brindou a ele uma dádiva, cuja base se fundamenta totalmente no exercício do livre arbítrio, a utilização dessa característica humana, só pode ser plenamente realizada quando os fatores de interferência externos não forem capazes de sobrepujar sua manifestação íntima e silenciosa.

  Sabendo-se que os conhecimentos são adquiridos de forma individual e aleatória de acordo com as experiências de cada um acerca de sua própria realidade, e sendo ela um conjunto de objetos nem sempre concretos, tem-se também que inferir através da sensibilidade as limitações lógicas de qualquer argumento. Essa relação de causa e efeito induz uma série de considerações sobre o raciocínio, que deve objetivar na medida do possível a aquisição de um novo conhecimento a partir de uma coleta de dados previamente selecionados, almejando algum de grau de assimilação a respeito dos mesmos, em síntese, a consciência aparentemente deriva dos processos resultantes da união do conhecimento, da experiência e do raciocínio pessoal.

  Paradoxalmente, o ato de raciocinar, tão peculiar a natureza humana, não pressupõe imediatamente o emprego consciência, constituindo-se basicamente de uma função cerebral, embora pressuponha inteligência, fato que naturalmente acontece ao se realizar cálculos mentais. Normalmente seus resultados se aplicam a obtenção de respostas curtas ou até a elaboração de argumentos sensatos que fundamentem a assimilação de algum conceito mais profundo sobre um assunto anteriormente observado e ponderado. Já o pensamento, produto elaborado da atividade de pensar, permite ao homem mais que perceber seu papel, inserindo-o no mundo, mas comprovar a expressão da consciência do espírito humano.

  Seria a consciência prerrogativa do pensamento, ou pensamento é fruto apenas da razão, da capacidade de raciocinar, ou ainda, a razão só se consumaria em resposta a atuação inteligência? Poder-se-ia deduzir que a consciência seria então o pré-requisito dessa tríade, constituindo desta forma uma contradição, sendo ela, ao mesmo tempo, a causa e a consequência de sua própria manifestação?

  Tentar conceituar filosófica ou cientificamente o que seja consciência é tão etéreo quanto sua própria confirmação. Esse fenômeno psicológico talvez esconda mais do que se pode ver a seu respeito, encobrindo na sua complexidade os aspectos metafísicos intrínsecos a existência de cada um. Dentre as qualidades humanas a consciência ergue-se soberana, valendo-se da completude do conhecimento que abarca na medida do que se vive, desta forma a cada dia vencido pode-se galgar um degrau a mais na escada da evolução. Partindo-se da premissa que não se pode renegar a existência de alguma coisa que ainda não se teve acesso, ser consciente é se permitir ao novo, ao desconhecido, consiste em quebrar paradigmas para ir além. É aniquilar o próprio medo da incerteza do eterno, conformando-se humildemente que talvez não seja possível entender tudo aquilo que se passa diante dos olhos, mas tendo a convicção de que apesar das limitações da percepção de nossa consciência, ela representa por si só, a vinculação a “algo” que está além de nossa própria existência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário