sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Essas Mulheres


   Certas coisas nesse mundo são incompreensíveis, uma delas é a postura masculina diante das mulheres. Considerando que a pouco mais de um século, a esmagadora maioria das mulheres não tinha praticamente nenhum direito reconhecido, de pasmar essa constatação, levando-se em conta sua situação atual, menos constrangedora, elas ainda continuam subjugadas pelos preconceitos oriundos das mais diversas fontes. 

    Devido às imposições naturais sobre a evolução da criatura humana, as esposas, fisicamente mais frágeis, permaneciam em seus abrigos em função da própria necessidade de sobrevivência e preservação da espécie, quiçá influenciadas pelo instinto materno, porém, vimos observando através dos tempos a lenta e gradual quebra de paradigmas. Realmente, houve na pré-história do homem uma justificativa plausível para tal conduta, mas o que observamos com transcorrer das eras foi a manutenção do “status” do macho frente a subserviência feminina, sem nenhum apelo lógico. Quando o homem começou a formar suas primeiras vilas ou cidadelas, as ameaças do ambiente natural se tornaram menores, desde então, elas poderiam usufruir de outra condição, menos degradante e mais justa frente à “sociedade”.

   Desde a Grécia antiga, das deusas, musas e pitonisas, berço da filosofia ocidental, essa postura lamentável vinha sendo mantida nos meios acadêmicos. Discípulo de Sócrates, Platão, ilustre pensador e fundador da Academia em de Atenas, ignorando sua própria mitologia, talvez tenha sido um dos precursores desse processo. Para ele, a natureza feminina era inferior a dos homens. Esse pensamento platônico perdurou através dos séculos e outros grandes nomes da filosofia mundial aderiram a este devaneio, Descartes, Nietzsche, Schopenhauer, Hume, entre outros, que também posterizaram suas idéias equivocadas a respeito das mulheres. 

   A filosofia não é de todo culpada, isso não seria justo, as crenças e as religiões fizeram e ainda fazem a sua parte neste preconceito improcedente, submetendo as mulheres desde sua concepção divina, um papel secundário. Geralmente os livros “sagrados” cobram delas uma conduta ilibada, casta, irrepreensível, sem manchas. Quanto aos homens, estes seres “superiores”, há uma complacência maternal, tolerando o que para elas consumaria a condenação ao fogo eterno. Isso não é tudo. Elas devem atender aos anseios do marido, cozinhar, educar, cuidar das crianças, e daí por diante. Curiosamente, esse aspecto, é convergente entre várias correntes, e encontra respaldo no apoio sacerdotal. Estranha coincidência?

   Essa influência nefasta sobre as mentes femininas deve ser observada. Quando consideramos que todos os homens sobre esta terra foram gerados (até agora) em algum ventre, fica notória a atuação desses pensamentos sobre o agir da mulher. Na maioria das vezes ela é vítima da própria condição de escrava das imposturas, despercebida de sua condição, ela propaga deliberadamente aos seus, aquilo que assumiu como verdade inquestionável, convicta de estar fazendo o bem, quando na verdade cria sobre suas asas um homem que respeita apenas a figura materna, aquela que é sagrada, intocável; para todas as outras caberá o machismo e arrogância, fruto daquilo que lhe foi ensinado com a melhor das intenções.

   Passaram-se muitos os anos e a mulher continuava vista como uma serviçal e mais um objeto de prazer. Iniciou-se na Inglaterra no século XVIII, celeiro de tantos pensadores, o movimento feminista, que preconiza a igualdade de direitos entre homens e mulheres Duas mulheres e um homem se detacaram, Mary Wortley Montagu (1689-1762) escritora, poetisa e pioneira da vacinação contra a varíola na Europa, Mary Wollstonecraft (1739-1797), com a obra “A Reivindicação dos Direitos da Mulher” e John Stuart Mill (1806–1873), no século XIX,  com “Sujeição das Mulheres” onde comparou o casamento a escravização da mulher.

   Esses manifestos erigiram as fundações do comportamento feminino moderno. Conscientes e provocadas a cobrar seus direitos respaldados pela razão, elas partiram a busca daquilo que sempre lhes foi negado, a liberdade, a instrução e a independência pessoal. Paulatinamente, o feminismo vem superando barreiras sociais, ideológicas e dogmáticas, tudo isso em tão pouco tempo. Se as mulheres tivessem acesso aos seus direitos com mais brevidade, certamente a história da humanidade teria sido outra, quem sabe mais humana.

   Pelo ou menos no mundo ocidental, a situação tem melhorado nas últimas décadas.

   Muitas mulheres reclamam que os homens são lacônicos, em contrapartida, algumas tem a propensão a falar demais, esse comportamento pode sugerir a manifestação de sua sensibilidade mais refinada, amparada pela intuição (feminina). Agora libertas, elas recuperam o tempo que lhes foi roubado, desejam estudar mais, conhecer mais, saber mais e sentir mais. Se não bastasse isso, elas possuem uma visão de conjunto muito mais elaborada que a do sexo oposto, são atentas, escutam e gostam de ser ouvidas. Não é a toa que hoje mais da metade dos postos no mercado de trabalho, dos assentos nas universidades, e mais uma infinidade de lugares, elas tem ocupado seu lugar e se destacado, galgando posições na política e em altos cargos de chefia. Portanto devem os homens acordar, comunicar, sacudir a poeira, rever seus conceitos, reinventar-se, porque se estamos aqui, “racional e civilizadamente”, podemos somar, respeitar as diferenças sem desgastar a relação, seja no trabalho ou em casa, porque nunca nos será possível escapar dessa convivência celebrada pelos ditames da “natureza”. 

   A responsabilidade das mães, enquanto “mulheres”, é enorme, podem ajudar a mudar o mundo, plantando na mente fértil dos filhos homens a semente contra o preconceito, para que esta viceje bela e vigorosa como a planta bem adubada. Só elas têm como evitar a perenidade dessa situação, unida a sensatez do pai, minimizar esse problema crônico da humanidade. Geralmente, bons pais, são exemplos do zelo e do respeito mutuo, eles irão reforçar no pensamento dos pequenos a importância de alguns sentimentos, fazendo aflorar o amor, o afeto, a cumplicidade, a tolerância, a discrição e tantos outros que aproximam o casal. Essas bases fortalecem o relacionamento, os princípios familiares e tudo de bom que poderá advir da união sadia entre os sexos.

   Meu agradecimento a minha amada esposa, que tanto me compreende, auxilia e inspira; e a todas as mulheres, que brindam ao “homem”, o direito a vida.

2 comentários:

  1. Boas noites Luiz!

    As cavoucadas continuam profundas e nos mais diversos terrenos. O texto nos remete a reflexões pessoais e sociais interessantes. Não há como negar os desvios que a humanidade tomou quando observamos a sociedade patriarcal vigente, especialmente no ocidente. Se bem que, se tivéssemos uma sociedade matriarcal ela possivelmente estaria pautada nos mesmos equívocos que a patriarcal. Ou seja, a cultura patriarcal/matriarcal converge para relações de dominação, submissão e controle, sem nenhuma tendência a colaboração.

    As religiões que deveriam ter como princípio a religação do ser humano com suas origens – quem sabe com o seu Criador –, na verdade alimentam uma relação de superioridade entre o homem e a mulher que só nos conduz a desarmonia. Desditosa sociedade que vivemos.

    Segundo Humberto Maturana, existiu entre 8 mil anos e 5 mil anos a.C. na região da Europa uma cultura matrística (de matriz), não matriarcal – antecessora da atual cultura patriarcal/matriarcal –. Essa sociedade matrística, era uma cultura onde homem/mulher eram coparticipes da existência. Homem e mulher não viviam sob “cutelos” hierárquicos nem eram oponentes. Havia harmonia e complementaridade.

    Quem sabe, antes de buscarmos nossa religação com o Criador, pudéssemos resgatar nossas origens na cultura matrística. Ou será que as duas coisas ocorrem ao mesmo tempo? E vamos que vamos... e vamos que vamos cavoucar!

    Abração,

    Roberto Lira

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  2. Bom dia Roberto,

    Esse "post" teve uma origem inusitada. Estava no trânsito, esta semana, quando o carro da frente carro ao meu, "deu uma fechada" no outro que estava na pista a minha direita. Tudo bem, entendo que possa acontecer, mas o outro motorista não, indignado, emitiu toda sorte de palavrões para a condutora que estava no carro a minha frente. Pensei comigo, e até tive vontade de perguntar, se ele gostaria que alguém dirigisse a sua esposa ou filha o mesmo conteúdo de palavras que usou. Fiquei refletindo sobre aquilo, inconformado, e resolvi escrever este texto. Sinceramente, não sei se ficou bom, mas de alguma forma que exteriorizar meus sentimentos.
    Confesso, que não sei como seria a evolução humana fundamentada nas bases matriarcais, embora consinta contigo que não deva se pautar nem sobre bases patriarcais ou matriarcais sob a pena de "converge para relações de dominação, submissão e controle, sem nenhuma tendência a colaboração", como citou.
    Quanto as religiões, esse terreno movediço sobre qual se sustentam grande parte das culturas humanas, deverão a passos seculares evoluir para não sucumbir ao conhecimento, cada vez mais presente e ao alcance da pessoa comum, que passará, como é natural, a questionar a veracidade destes dogmas.
    Não conhecia Humberto Maturana, vou ler sobre ele e suas concepções da sociedade matrística, penso que algum dia a alcançaremos, justa, imparcial, complementar, sem imposturas.
    Sem dúvida é bastante razoável buscar matrísticamente aquilo que está ao nosso alcance, muitas vezes no mesmo leito, procurando um equilíbrio, celebrado conscientemente entre homens e mulheres que almejam um mesmo propósito de bem para suas vidas.
    Quanto ao "divino", penso eu, cada um tem o seu tempo e sua medida, individual mesmo, a busca pela "verdade", que devemos nos permitir, tem diferentes pesos e medidas na mente de cada um e é profundamente distorcida por nossas percepções pessoais, valores e juízos.
    Minha inquietação íntima é grande, mas insisto, afinal, nada me impede fazer minha busca em paralelo.

    Me despeço.

    Bom final de semana sobre o saibro e grande abraço Roberto.

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